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Memória das favelas agora é patrimônio: Observatório de Favelas lança inventário inédito

E-book "Corpo Morada" mapeia referências culturais em oito comunidades da Leopoldina e coloca as favelas no centro da história do Rio

Foto: Thaís Valencio
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Quando se fala em patrimônio cultural no Brasil, logo vêm à mente igrejas centenárias, fortalezas, casarões e palácios. Esses lugares são protegidos, reconhecidos e fazem parte da memória oficial das cidades. Mas fica uma pergunta no ar: por que as histórias e as memórias produzidas dentro das favelas quase nunca são reconhecidas como patrimônio?

Foi pensando nessa questão que o Observatório de Favelas lançou o e-book “Corpo Morada – Inventários e Educação Patrimonial nas Favelas da Leopoldina”. A publicação é gratuita e foi feita em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. O material traz os resultados de um mapeamento inédito das referências culturais de favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro.

O projeto foi construído junto com os moradores. Durante a pesquisa, foram realizadas entrevistas, reuniões e grupos de conversa para que as próprias comunidades apontassem o que consideram importante na sua memória e na sua cultura. Foram ouvidas pessoas da Maré, do Complexo do Alemão, do Complexo da Penha, de Manguinhos, de Brás de Pina, da Cidade Alta, do Kelson’s/Marcílio Dias e de áreas da região de Ramos. No total, os moradores inventariaram 381 bens patrimoniais, entre lugares, práticas e pessoas que são importantes para a cultura de cada uma dessas oito favelas.

O nome “Corpo Morada” já diz muito sobre a ideia do projeto: o patrimônio também está no corpo, na morada, no dia a dia das pessoas. A publicação parte do entendimento de que patrimônio não é só tijolo e cimento. Ele também é feito de saberes que passam de geração em geração, de redes de solidariedade entre vizinhos, de formas de ocupar o território, de festas, de rodas de samba, de lutas e de jeitos de viver que foram construídos ao longo do tempo.

Em cada comunidade, o trabalho de campo seguiu temas que brotaram da própria experiência local. Em Manguinhos, por exemplo, os pesquisadores mergulharam nos patrimônios literários. No Kelson’s, as memórias das águas ganharam destaque. Em Brás de Pina, as narrativas de resistência contra as remoções e a luta por direitos foram o fio condutor.

Júnior Pimentel, coordenador-executivo do eixo de Políticas Urbanas do Observatório de Favelas, resume bem o espírito do trabalho: “O mapeamento foi construído junto com os moradores, a partir do que eles reconhecem como memória e patrimônio. Cada território traz uma forma própria de contar sua história”.

O e-book também revela uma contradição: as favelas tiveram e continuam tendo um papel fundamental na formação do Rio de Janeiro. Elas influenciam a música, a dança, a linguagem, a arquitetura e os modos de vida que hoje são a cara da cidade. Mas, mesmo com tanta importância, a presença das favelas nas políticas de patrimônio ainda é muito pequena.

Essa diferença de tratamento mostra que existe uma disputa sobre quais histórias merecem ser lembradas e quais são deixadas de lado. Enquanto algumas narrativas ganham reconhecimento do poder público, outras continuam pouco documentadas e pouco valorizadas.

O projeto “Corpo Morada” quer mudar essa realidade. Além do inventário participativo, ele também realizou um curso de Educação Patrimonial, voltado principalmente para mulheres negras que atuam na cultura, na pesquisa e no ativismo social em suas comunidades. O curso foi feito em parceria com a Faculdade de Arquitetura da UFRJ e contou com professores que, na maioria, são moradores de favelas e periferias.

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