O mapa da educação no Rio de Janeiro está sendo redesenhado à força. Não por canetadas institucionais, mas pelo vigor de braços jovens, favelados e periféricos. As grandes universidades, que até pouco tempo atrás figuravam como um sonho distante, hoje são ocupadas pelo ritmo agitado de quem almoça no ônibus e estuda entre um turno de trabalho e a subida do morro. Esther Mohamad, Gustavo Silva, Maria Eduarda Luduvico, Maria Eduarda Rezende e Rafaela França não são apenas estudantes, eles representam uma geração que transforma o acesso ao ensino superior em realidade.
O “corre” acadêmico
O ingresso é apenas a primeira fronteira. Para o universitário favelado, a verdadeira prova de resistência atende pelo nome de permanência. Gustavo da Silva, morador do Vidigal, personifica a “viração” acadêmica. Aluno de Economia na UFRJ, ele equilibra o rigor das teorias de mercado com a venda de brownies e o serviço em hotéis.
“O segundo período foi o mais difícil. Foi uma loucura porque fiz a doideira de puxar cinco matérias, uma delas era cálculo, e ainda estava trabalhando em diversos lugares”, relata Gustavo. “Acordava cedo, saía correndo 12h, almoçava no ônibus para chegar na Praia Vermelha. Chegava exausto em casa e ficava naquele impasse: descansava para trabalhar amanhã ou estudava? Hoje, mesmo com a gratuidade do bilhete, gasto muito com mototáxi. Chego cansado da faculdade e a subida a pé é um peso extra.”

Ciência e Sobrevivência no CPX
Enquanto Gustavo projeta gráficos, Maria Eduarda Luduvico observa a vida pelas lentes. Moradora do Complexo do Alemão, no 4º período de Biologia do IFRJ, ela desmistifica a figura do cientista isolado. Para ela, o laboratório é o território que ela ocupa e abre caminho para o futuro.
“Já me ocorreu de perder aulas por causa da violência, o que me atrapalhou pois os conteúdos são importantes”, lamenta a futura bióloga. Ela destaca que a falta de recursos em casa é suprida pela garra e pela rede pública. “Infelizmente não possuo condições financeiras para ter microscópios ou bibliografias básicas em casa, porém minha faculdade disponibiliza ambos. A ciência precisa de meninas e mulheres como nós. Quero alcançar espaços significativos e representar as mulheres nessa área.”

A Pedagogia da Ancestralidade
Na UERJ, o curso de Pedagogia recebe duas potências que lidam com o peso histórico de suas linhagens. Esther Mohamad e Maria Eduarda Rezende provam que, na favela, o diploma nunca é individual, é um patrimônio compartilhado.
Esther Mohamad, do Morro da Caixa D’água, em Piedade, enfrentou o labirinto burocrático para garantir seu lugar. “Entrei por ampla concorrência mesmo tendo direito a cotas, pois tive dificuldades para enviar os documentos. Passei seis meses correndo atrás até conseguir os auxílios”, conta. Para ela, a logística é uma barreira física: “Subir e descer o morro é desgastante. Os ônibus são cheios, o trânsito é certo. Na formatura, quero celebrar o esforço da classe trabalhadora por me apoiar e ser o motivo da minha luta.”
Já Maria Eduarda Rezende, do Morro do Tuiuti, carrega o título de primeira mulher negra da família a acessar uma universidade pública. Trabalhando no setor de Óleo e Gás, ela faz o malabarismo entre o RH e os estágios obrigatórios. “Ser preta, mulher e moradora de favela é um desafio desde que me conheço como gente. Mas ocupar a UERJ tem um peso enorme: é carregar ancestralidade. A Maria Eduarda criança está morrendo de orgulho da atual, sabendo que vencemos nosso maior medo: o de ser vista e reconhecida. Modupé! Estou grata!”
Alunos negros têm direito às cotas raciais e podem acessar universidades públicas por meio de política afirmativa, assim como aqueles de baixa renda.


O Direito que Nasce da Base
Rafaela França encerra o mosaico como símbolo da multitarefa extrema. Mãe atípica e gestora do projeto NEEM, ela cursa Direito como bolsista na Unisuam, transformando a vivência comunitária em estratégia jurídica.
“Hoje estou respeitando o meu corpo e o meu tempo. Como mãe atípica, o esforço e a disciplina já fazem parte da rotina”, afirma Rafaela. Ela aponta que o isolamento da instituição privada é vencido pela rede de apoio. “Conseguimos livros por solidariedade de amigos. Minha prioridade será a advocacia humanizada. A favela pode confiar que estarei disponível para demandas. Não nos falta garra.”

O Retrato de 2026: Razão e Dados
Segundo dados do Data Favela 2026, embora o ingresso de moradores de periferia tenha sido impulsionado por políticas como o Jaé Universitário, cotas sociais e raciais, a taxa de conclusão ainda é a grande barreira: apenas 7% dos moradores de comunidades possuem diploma superior.
O racismo estrutural, as violências e a questão financeira permanecem como os principais vilões que provocam a evasão universitária. Nesse cenário, as trajetórias de Gustavo, Esther, Maria Eduarda Luduvico, Maria Eduarda Rezende e Rafaela deixam de ser apenas histórias individuais para se tornarem atos de heroísmo cotidiano. Eles não estão apenas estudando, estão escrevendo as narrativas das suas trajetórias para que a favela e a negritude, finalmente, ocupe o lugar de direito na produção do saber.
