Na Fazendinha, no Complexo do Alemão, o futebol tornou-se uma ferramenta de acesso e inclusão de pessoas com deficiência ao esporte. Trata-se do trabalho do Projeto Elite, que oferece aulas gratuitas no Campo do Seu Zé, Complexo do Alemão, para cerca de 200 crianças e adolescentes de diferentes faixas etárias.
A iniciativa começou em outubro de 2024, a partir de uma mobilização da Associação de Moradores, e desde então tem alcançado jovens de áreas como Alvorada, Inferno Verde, Casinhas, Área 5 e a própria Fazendinha. À frente das atividades está o professor Webert Machado, responsável por conduzir os treinos e consolidar o Elite como um espaço de transformação social.
Um dos pilares do projeto é a inclusão. Crianças com deficiência ou autismo participam das turmas lado a lado com os demais alunos. “Muitas chegam sem saber nada, vindas de uma rotina de ficar em casa assistindo TV ou no celular. O esporte muda isso. Além de ensinar futebol, aprendemos muito com elas também. A inclusão é uma parte muito importante do nosso trabalho. Infelizmente, crianças autistas ou com deficiência ainda sofrem rejeição. Aqui, fazemos questão de integrá-las com as demais, porque acreditamos que futebol é para todos. Essa convivência é boa tanto para quem é PCD quanto para as outras crianças”, destaca o professor.

As aulas acontecem em dois turnos, reunindo grupos de idades variadas. O trabalho é intenso, mas Webert garante que a dedicação é recompensada pelo retorno que recebe dos alunos e das famílias. “Eles me respeitam muito, e isso fortalece o vínculo. Muitas vezes, quando estou cansado, uma criança vem, me abraça e diz ‘te amo’. Esses gestos mostram que estamos no caminho certo”, conta, emocionado.
Mais do que treinar fundamentos de futebol, o Elite se preocupa em formar cidadãos. A exigência é clara: a escola vem em primeiro lugar. Crianças e adolescentes que não estão frequentando as aulas não podem participar dos amistosos. A ideia é reforçar a importância da educação como base para qualquer sonho.
“O futebol é uma porta, mas queremos que todos cresçam com valores. Se não seguirem carreira no esporte, que possam ser médicos, bombeiros, professores, trabalhadores de caráter. O importante é que tenham disciplina e propósito”, explica.
O projeto já começa a dar os primeiros passos no universo competitivo. Desde sua criação, os alunos participaram de duas competições oficiais. Ainda em início de trajetória, os resultados são vistos como parte de um processo natural de amadurecimento. Para o professor, cada torneio é uma chance de mostrar aos jovens que eles podem sonhar alto e conquistar espaços fora da comunidade.
O nome escolhido para a iniciativa reforça esse objetivo. “Quando falamos em Elite, pensamos no mais alto nível, em algo grandioso. É isso que desejo para cada criança e adolescente daqui: que se sintam capazes, que tenham orgulho de dizer que fizeram parte do projeto e que levem essa experiência para a vida”, diz Webert.
Entre as histórias que mostram o impacto da iniciativa, uma se destaca: o irmão de Webert, William Brito, que tem síndrome de Down e é apaixonado por futebol, participa dos treinos e inspira os demais. “Ele faz parte do projeto como qualquer outro. Isso prova que aqui todo mundo tem espaço. Futebol é união, e ninguém fica de fora”, afirma.
Com menos de um ano de existência, o Projeto Elite já se consolidou como referência no Alemão. Para o professor, é um compromisso de vida: “A minha perspectiva é que eles cresçam como cidadãos, com caráter, disciplina e esperança no futuro. Esse é o maior gol que podemos marcar juntos.”


