Em territórios onde a infância muitas vezes é atravessada pela violência e pela ausência de políticas públicas, a arte e a literatura se tornam caminhos de resistência e reinvenção. Duas meninas pretas vêm construindo trajetórias inspiradoras, mostrando que o acesso à cultura pode transformar não apenas suas vidas, mas também a realidade de toda uma comunidade.
De um lado, Helena Ferreira, de 17 anos, co-fundadora do Pretinhas Leitoras e da Biblioteca do Erê, projetos nascidos no Morro da Providência. Do outro, Lua Miranda, de apenas 8 anos, atriz mirim, sambista e recentemente coroada musa da Mangueira, que carrega no corpo e na voz a tradição do samba e a ancestralidade da maior escola de samba do mundo.
“A leitura foi o meu refúgio”
Helena tinha apenas 7 anos quando, assustada com as constantes operações policiais no Morro da Providência, decidiu com a irmã Eduarda criar um espaço de acolhimento para outras crianças. Assim nasceu a semente do Pretinhas Leitoras que, anos depois, daria origem à Biblioteca do Erê. “Eu morava em um lugar onde o tiroteio fazia parte da rotina. Eu tinha medo de ser mais uma vítima da violência e a leitura foi o meu refúgio”, lembra.

“Na nossa favela não tinha biblioteca. As crianças não tinham acesso a livros, nem incentivo à leitura. A gente começou trazendo de casa o que nossa mãe pegava emprestado na faculdade e, a partir disso, criamos rodas de leitura e conversa”, conta.
O projeto cresceu e se transformou em referência. Atualmente, a Biblioteca do Erê reúne centenas de livros com foco na literatura negra e promove oficinas e rodas de leitura que trabalham autoestima, identidade e consciência crítica. “Nosso foco é política e autoestima. Queremos que as crianças negras se sintam bonitas, que olhem no espelho e reconheçam a própria potência”, reforça Helena.
Ela diz que o impacto é nítido. “Crianças que tinham vocabulário agressivo e comportamento explosivo mudaram. Agora se elogiam, se reconhecem, falam com orgulho: ‘eu sou bonito, eu sou bonita’. A autoestima é o nosso primeiro passo. Ler é se ver no mundo.”
Uma nova voz do samba
Próximo à Mangueira, outra menina preta também aprendeu cedo que a arte pode abrir caminhos. Lua Miranda cresceu cercada de música. Filha de família sambista, começou cantando em rodas e se apresentando em projetos sociais. Aos poucos, conquistou espaço em musicais, especiais da TV Globo e agora vive o auge de sua trajetória como musa da escola de samba Estação Primeira de Mangueira.
O anúncio mexeu não apenas com a sua vida, mas com toda a comunidade. “Me senti muito feliz. As merendeiras da minha escola foram as primeiras a comemorar comigo. Minha mãe sempre sonhou que eu fosse musa da Mangueira, mas agora é também o meu sonho”, contou Lua, que já participou de produções que exaltam a cultura negra, como o especial de Dia das Crianças em 2023, na TV Globo, protagonizado por uma família preta.

Sua mãe, Ivana Miranda, reforça a importância dos projetos sociais na trajetória da filha. “Tudo o que a Lua conquistou começou dentro da Mangueira. O samba, a cultura, os projetos sociais foram fundamentais. Eu sempre digo que a arte salva, porque vi salvar muita gente e vejo salvar a minha filha todos os dias.”
Com apenas 8 anos, Lua já entende o peso de sua presença como inspiração para outras meninas. Entre aulas, ensaios e apresentações, ela se divide entre a rotina de criança e os palcos, mas sem abrir mão da leveza da infância. “Ser criança é brincar, cantar, estudar e acreditar que tudo é possível”, resume.

Inspirações do futuro
Na Providência, a Biblioteca do Erê virou um espaço de convivência, onde crianças que antes tinham contato com a violência hoje se reúnem para ler, trocar ideias e sonhar com futuros diferentes. Na Mangueira, o samba funciona como escola de vida, ensinando disciplina, ancestralidade e pertencimento, ao mesmo tempo em que insere meninas como Lua em um circuito de valorização da cultura preta. Aos 17, Helena já sonha em expandir a Biblioteca do Erê para outras favelas do Rio e da Baixada Fluminense. Lua, por sua vez, sonha em cantar, atuar e desfilar, levando consigo a bandeira da Mangueira e da cultura do território.
