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Germinar: mulheres cultivam autonomia na Serra da Misericórdia

Contemplado em edital da FAPERJ, o projeto do germinar Agroecológico integra o Programa PISTA Alemão, com apoio do PNUD e da ONU

Foto: Arquivo / projeto germinar
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Em um território onde muitas mulheres ainda enfrentam desafios como a violência doméstica, a dependência financeira e a falta de oportunidades, um projeto vem cultivando muito mais do que alimentos. O Projeto Germinar semeia autonomia, fortalece a autoestima e cria caminhos para que mulheres da Serra da Misericórdia escrevam uma nova história por meio da agroecologia, do empreendedorismo e da educação ambiental.

A iniciativa foi contemplada em um edital da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e integra o Programa PISTA Alemão, realizado com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da Organização das Nações Unidas (ONU). O investimento permitiu que um sonho construído coletivamente começasse a sair do papel e se transformasse em realidade.

Por trás desse projeto está a história de Jéssica dos Santos Devita, moradora da Serra da Misericórdia. Nascida e criada na Rua Campos Floridos, ela aprendeu desde cedo que viver em comunidade significa cuidar das pessoas ao seu redor. Cresceu em uma família numerosa, onde os ensinamentos da mãe e, principalmente, do avô Sebastião marcaram sua trajetória. Foi observando a forma como ele acolhia e ajudava quem mais precisava que Jéssica compreendeu que servir ao próximo poderia se tornar um propósito de vida.

Atualmente, além de mãe de santo, ela dedica sua vida às ações desenvolvidas pelo Telhado Verde Agroecológico, organização fundada por seu esposo, Ricardo, há quase dez anos. Inicialmente criada para fortalecer práticas ambientais, a instituição passou a ampliar sua atuação quando Jéssica percebeu que os maiores desafios enfrentados pelas mulheres da comunidade iam muito além da preservação ambiental.

Durante as atividades realizadas com crianças e suas famílias, ela ouviu histórias que se repetiam diariamente. Mulheres que sonhavam em mudar de vida, mas não conseguiam porque dependiam financeiramente dos companheiros. Muitas permaneciam em relacionamentos abusivos por não terem renda própria. Outras precisavam escolher entre comprar alimentos, medicamentos ou investir em algum curso que pudesse abrir novas oportunidades.

Foi dessa escuta atenta que nasceu o Projeto Germinar.

Mais do que ensinar técnicas de plantio, o objetivo era oferecer liberdade. Para Jéssica, autonomia financeira representa dignidade, autoestima e a possibilidade de que cada mulher possa decidir o próprio futuro. O projeto surgiu justamente para mostrar que conhecimento também pode gerar renda e transformar histórias.

O recurso conquistado por meio do edital da FAPERJ possibilitou ampliar a estrutura do Telhado Verde Agroecológico. A sede está sendo transformada em um espaço de formação e inovação, com a construção de um laboratório de inovação alimentar e de uma cozinha onde serão produzidos alimentos e produtos agroecológicos, como sabonetes, pomadas, incensos, shampoos e outros cosméticos naturais elaborados a partir das ervas cultivadas na própria horta da instituição. A proposta é que todo esse conhecimento seja convertido em geração de renda para as participantes.

Enquanto as obras seguem em andamento, a iniciativa não parou. As oficinas da segunda turma continuam acontecendo em parceria com a Clínica da Família Bibi Vogel, que disponibilizou sua estrutura para receber as participantes. Nesse período, as mulheres aprendem sobre agroecologia, cultivo, beneficiamento de alimentos, fabricação de produtos naturais, gestão financeira, criação de marcas e estratégias de comercialização. O objetivo é que cada uma saia preparada para empreender e construir seu próprio negócio.

Os frutos do Germinar já começaram a aparecer. A primeira turma concluiu sua formação com a certificação de oito mulheres, entre 40 e 60 anos, provando que nunca é tarde para aprender, empreender e recomeçar. Agora, a segunda turma dá continuidade a esse processo, ampliando o alcance da iniciativa e fortalecendo uma rede de mulheres que encontram no conhecimento uma oportunidade de mudar suas próprias histórias.

Foto: Arquivo / projeto germinar

Entre as histórias que representam o impacto da iniciativa está a de Mônica Maia Affonso, de 56 anos. Formada em Técnicas de Agroecologia e Plantas Medicinais pela Fiocruz, ela atua com práticas integrativas em saúde, educação socioambiental e produção de sabonetes e cosméticos naturais à base de plantas medicinais. “Minha missão é levar cuidado, saúde e sustentabilidade para a comunidade, de um jeito simples e acessível”, resume Mônica.

Hoje, Mônica é uma das referências do projeto. Ela ensina outras mulheres, desenvolve receitas, pesquisa matérias-primas e compartilha tudo o que aprendeu ao longo da sua trajetória. Sua história traduz o principal objetivo do Germinar: fazer com que mulheres transformadas se tornem agentes de transformação dentro da própria comunidade.

Para Jéssica, a maior conquista do projeto não está apenas na construção de um laboratório ou na ampliação da sede. O verdadeiro resultado aparece quando uma mulher passa a acreditar em si mesma, descobre seu potencial e percebe que é capaz de gerar renda, conquistar autonomia e transformar a realidade da própria família.

Mais do que um projeto de capacitação, o Germinar demonstra que a transformação social nasce de dentro para fora. Ao unir sustentabilidade, empreendedorismo e fortalecimento feminino, a iniciativa reafirma que investir nas pessoas é investir no futuro da comunidade. Cada semente plantada representa uma nova oportunidade. Cada mulher fortalecida inspira outras a também florescerem. É assim que o Projeto Germinar segue cultivando esperança, autonomia e transformação na Serra da Misericórdia.

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