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Geovani Martins, escritor de O Sol na Cabeça, conta sobre a vivência favelada 

O Dia Nacional do Escritor mostra a importância da literatura para pessoas faveladas

Geovani Martins, autor de O Sol na Cabeça conta sobre o Dia Nacional do Escritor
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O Dia Nacional do Escritor, comemorado em dia 25 de julho, destaca a importância da presença de escritores moradores de favelas e periferias do Brasil, para construir a história do país. Entre os nomes de peso na literatura brasileira da atualidade está Geovani Martins, de 33 anos, cria de Bangu e que passou a morar na Rocinha, já morou em mais de 30 casas, é escritor e autor de O Sol na Cabeça (2018) e Via Ápia (2022).

Geovani conta sobre o que é ser escritor: “Escritor não é algo que existe no livro. A história do Brasil, ela tá documentada através do samba, samba enredo, reggae, rap, gêneros culturais, que foram criados dentro das favelas e periferias.” Ele complementa: “Histórias de favelas são construções coletivas”

Dia Nacional do Escritor com Geovani Martins. Foto: Vilma Ribeiro/ Voz das Comunidades

A escrita de Geovani chama atenção por ser fácil, e a linguagem usada é a mesma falada nos becos, parece que tu está trocando ideia com uma pessoa comum. Cria-se um lugar de poder dentro da língua brasileira para registrar as memórias, porque, durante muitos anos, as gírias e expressões populares foram deixadas de lado e perdidas. O escritor destaca que se sente como uma antena, captando o que está acontecendo à sua volta e desenvolvendo novas histórias. Ele complementa: “Gosto de ser um autor acessível, que as pessoas gostam de ler e entendem.”

O pontapé do autor foi a Festa Literária das Periferias (Flup). Ali, conheceu outros autores do mesmo corre, de diferentes favelas cariocas. Esse processo, ajudou a entender o mercado literário, sobre ser escritor e que tem potência estética, trabalhar histórias que cresceu ouvindo e escrever na língua que ele foi criado. 

A Flup fez com que ele entendesse que o leitor e o morador de favela não precisavam estar separados. Na verdade, se tornavam ainda mais potentes quando estavam juntos. O livro passou a ser uma forma de se aproximar das histórias. 

“Quando eu percebi que eu poderia falar sobre o que era próximo e íntimo. As pessoas começaram a gostar das coisas que eu escrevia”, relata Geovani, quando se enxergou enquanto escritor brasileiro. 

Recepção do público

A literatura não é um bicho de sete cabeças. Um exemplo disso, são as histórias das obras de Geovani que conversam com pessoas que poderiam ser personagens delas e isso, conecta e repercute mundo afora. Seu trabalho chega em escolas municipais e estaduais, e em casas de detenção. Isso o impacta, pois vê as pessoas criando diálogos com as leituras. Existe motivação para novos leitores circularem e verem que eles podem ler o que gostam. 

Ele diz que recebe relatos de professores e dos próprios alunos, dizendo que começaram a ler por meio de seus livros. Um exemplo marcante aconteceu durante sua última participação na Bienal: um jovem, com cerca de 18 anos, se aproximou para contar que os dois primeiros livros que leu na vida foram justamente os dele. Hoje, esse mesmo jovem já está lendo Jorge Amado e, naquele dia, disse que queria comprar um livro de Machado de Assis.

A ideia de ser uma ponte entre textos e tempos, é essencial para entender como a leitura é uma ferramenta social. Muito importante para pessoas empobrecidas porque simboliza poder e também, quando falta, representa exclusão. Sua felicidade maior é saber que as juventudes faveladas estão lendo. 

Comece a escrever 

Ele detalha que gosta muito de ler e de história, porque cresceu com a tradição griô, que vem da África, o costume de contar histórias, e que se reflete e continua muito presente nas favelas. A sua maior busca é continuar escrevendo com liberdade e verdade, e continuar comunicando com o máximo de pessoas possível.

O escritor compartilha duas dicas fundamentais para quem deseja escrever bem. A primeira é a leitura, pois, por meio dela, adquire-se noção da linguagem, do formato e de como organizar as ideias. Ler ensina, de forma profunda, a escrever. A segunda dica é manter o ouvido atento e o olhar aberto para as experiências ao redor. Aqueles que permanecem atentos ao que acontece à sua volta saem na frente, pois conseguem enxergar além das tendências e das propagandas.

Ir além, entender que a vivência não se prende em um texto. Martins afirma: “A gente pode costurar vivências, é olhar para a escrita como um caldeirão, pegar uma história, mistura com outra, pegar um personagem tal que você conhece, fazer um personagem novo.”

O papo reto: o escritor destaca que não se deve forçar a leitura de livros que não despertam interesse. Ele sugere que cada pessoa busque aquilo que faz sentido para si e vá descobrindo autores que abordam temas pelos quais se interessa.

Ler é uma ferramenta social

Geovani acredita que dominar a linguagem amplia o acesso a espaços e possibilita disputar narrativas e lugares de poder. Como escritor, entende que colocar ideias no papel é um ato de profunda exposição. Mergulha em experiências que nenhuma inteligência artificial pode proporcionar. Seus livros são frutos de vivências reais, e é essa verdade que leva ao leitor. O livro é uma tecnologia antiga, mas bem-sucedida, que seguirá tendo seu espaço no mundo.

Para ele, o mais importante não é pensar em “humanizar” seus personagens. As pessoas sobre as quais escreve são aquelas que conhece profundamente, ele já conhece sua humanidade. Seu maior desafio, diz, seria humanizar um playboy ou um policial, não os moradores das favelas que fazem parte de sua vivência.

Memória dos territórios

Geovani menciona com carinho o conto Rolezinho, o primeiro conto do livro O Sol Na Cabeça. Sentiu ali que conseguiu sintetizar uma época, especialmente quando os jovens da favela desciam para ir as praias e, ao voltarem, eram levados em massa para delegacias. Aquele conto funcionou como uma escola para o restante do livro.

Já Via Ápia, para ele, sua obra mais madura. Um romance ambicioso, onde pôde dedicar mais tempo para refletir sobre o que queria dizer. Ao escrever sobre a Rocinha nesse livro, entende que também está construindo uma memória. Daqui a um tempo, quem quiser entender o que foi a Rocinha, poderá recorrer àquela narrativa como um documento, como uma ferramenta de acesso a um tempo e a um lugar.

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