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Fotogracria, a cria que ganha o mundo sem sair da Rocinha

Nascida e criada na favela, fotógrafa transforma memórias e cotidianos em arte e conquista reconhecimento internacional

Foto; Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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A história de quem registra uma favela com a câmera nem sempre começa na lente de um equipamento profissional. Para Kimberly Daniella Katrine Romano Duarte, a carioca conhecida no meio artístico como Salem ou “Fotogracria”, a fotografia começou a ser praticada profissionalmente por volta de 2018, mas suas raízes no olhar visual nasceram muito antes. Ela se consolidou na intimidade do lar, folheando álbuns de família e preservando afetos da Rocinha, onde nasceu e foi criada. Hoje, consagrada no circuito cultural, ela transforma a vivência comunitária em uma poderosa ferramenta de afirmação de identidade e revolução cultural.

“Eu achava que a minha carreira tinha começado quando tive o meu primeiro contato com a câmera lá na praia, quando era atleta de bodyboard de um projeto social. Mas, na verdade, a minha história com a fotografia começa lá em casa, nos arquivos familiares”, relembra Salem. “Nossas mães, nossos pais, nossas avós tiravam foto, que era caro, mas é onde a gente tem a nossa memória.”

O caminho até a profissionalização passou pelo improviso, elemento comum na trajetória de quem produz arte nas periferias. Começou registrando imagens pelo telefone celular e pegando equipamentos emprestados para construir seu primeiro portfólio. A virada de chave veio quando ganhou a primeira câmera de um amigo.

“Quando eu consegui essa câmera, esquece. Tu vê geral com equipamento ‘bolado’, mas eu tinha tanta confiança no meu trabalho, no meu pertencimento, na história que eu carrego dos meus ancestrais e do lugar onde eu moro. Aí eu ia lá e arrasava.”

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Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Território, memória e ancestralidade

A autoconfiança que tem fundamenta a estética do trabalho da fotógrafa, que conecta territorialidade, memória e ancestralidade. Longe das narrativas estigmáticas costumeiramente associadas às favelas no noticiário tradicional, o olhar de Salem busca destacar a riqueza humana e a busca pelo bem-viver no cotidiano da Rocinha. “A arte e a cultura também são maneiras de se fazer uma revolução”, afirma. “Tem milhares de pessoas produzindo obras, conteúdos, narrativas e músicas, mostrando também o lado bom, o lado gostoso e a maneira como a gente tenta ter um bem viver dentro das mazelas de viver numa favela.”

A consistência de suas obras levou sua arte longe. Com trabalhos exibidos em diversos continentes e exposições em países como a França, a fotógrafa rompeu as fronteiras do território e conquistou espaços historicamente inacessíveis às populações periféricas. A maior vitória, no entanto, é ver a própria comunidade ocupando esses lugares. “Além dos anos atrás, com certeza eu não imaginava estar expondo em museus. Minha família vai ao museu sempre que tem exposição minha. A gente se sentir pertencente a esses espaços é fundamental.”

GRAVAÇÃO COM A FOTOGRACRIA-BASTIDORES
Foto; Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Novas metas

Os planos futuros da artista mantêm os pés firmes em suas raízes. Salemm está finalizando um livro fotográfico que retratará a Rocinha a partir da perspectiva inédita de uma mulher moradora. O projeto dialoga com referências locais, como o Museu Sankofa da Rocinha, e com pensadores como Nego Bispo, cuja premissa defende que o conhecimento deve ser compartilhado com o povo. Ela também planeja realizar sua primeira grande exposição individual no Brasil , e faz questão de que seja dentro da própria comunidade.

Para os jovens que sonham em seguir pelo mesmo caminho, o recado de Salemm é direto e encorajador. “Não espera vocês terem acesso às coisas para vocês fazerem. Só começa com o que você tem, irmão. A gente não pode esperar as oportunidades chegarem para poder articular as nossas ideias e planejar. Nós temos que botar a cara mesmo, e aí tudo vai fluir.”

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