Em 15 dias, quatro moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro foram mortos por tiros. São histórias de pessoas comuns, que trabalhavam, estudavam, cuidavam da família e foram atingidas pela violência armada que atinge o cotidiano das favelas.
No dia 11 de julho, Karolaine Nascimento Neves, de 28 anos, foi encontrada morta dentro de um valão na Favela do Dourado, em Cordovil. Karolaine era autista e, segundo a família, tinha o hábito de catar reciclagem para comprar suas próprias coisas. Ela morava na comunidade desde que nasceu e era muito conhecida e amada pelos vizinhos. No dia do crime, ela ouviu um pedido de socorro do cunhado e saiu de casa para ajudar. O Instituto Médico Legal (IML) constatou cerca de 30 perfurações de tiro no corpo dela, além de marcas de facada. A família, durante o enterro no Cemitério de Irajá, pediu justiça. “Minha irmã não era bandida, era uma pessoa amada e conhecida por todo mundo. Ela foi matada brutalmente, não merecia”, desabafou o irmão Renan Neves. A tia, Maria Helena, também se revoltou: “Ela catava reciclagem para comprar as coisas pra ela, mas ela tem família, todo mundo gostava dela. Fizeram covardia com ela”.
No dia 18 de julho, foi Maiky Brian dos Santos Silva, de apenas 16 anos. O adolescente era lutador e morava no Morro do Juramento. Ele foi uma das vítimas dos confrontos que, em poucos dias, já haviam matado nove pessoas na região. Moradores e motoristas que circulam pela Avenida Pastor Martin Luther King Júnior, próxima ao morro, vivem com medo constante. “Todo dia eu trabalho aqui. Fico com bastante medo”, contou o motorista Anderson da Silva. A analista de sistemas Bianca Silva Oliveira também relatou o clima de tensão. “A gente fica num terror psicológico danado, mas a gente tem que trabalhar”.
Dois dias depois, no dia 20 de julho, a violência chegou a uma idosa de 75 anos. Leda Maria da Conceição Antônio, conhecida carinhosamente como Tia Leda pelos moradores de Vigário Geral, foi baleada dentro da própria padaria, onde trabalhava. Ela era dona do estabelecimento e, segundo familiares, estava no local na hora do tiroteio. Um entregador de aplicativo também foi atingido pelos disparos e levado ao Hospital Getúlio Vargas. A morte de Tia Leda abalou profundamente a comunidade.
E a lista de vítimas não parou por aí. Na Chácara do Céu, na Tijuca, no último sábado (25), João José da Silva, o “Zé Badu”, de 80 anos, também foi morto por uma bala perdida durante um intenso tiroteio no Andaraí. Zé Badu estava no bar que ele mesmo mantinha na própria casa quando foi atingido. Ele chegou a ser socorrido e levado para o Hospital Federal do Andaraí, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte. Morador antigo da comunidade, natural da Paraíba, ele vivia no Rio havia quase 50 anos e era uma figura muito querida na região. Uma das netas do idoso passou mal durante o velório, foi ela quem encontrou o avô ferido, depois de pular um muro para tentar prestar socorro. “Todos estão muito abalados com tudo isso. Ele deixa muita saudade. É mais uma estatística sem resposta”, desabafou a nora Lubia Alves.
O impacto da violência armada no dia a dia das favelas
Esses três casos não são isolados. A violência armada afeta a vida de milhares de pessoas todos os dias nas favelas do Rio. Ela interrompe o direito de ir e vir, fecha escolas, prejudica o comércio e adoece a população. Um estudo recente mostrou que mais de 188 mil alunos da rede municipal tiveram o trajeto para a escola interrompido por tiroteios e barricadas entre 2023 e 2025. As consequências vão além: transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão são algumas das marcas deixadas pela exposição constante à violência armada.
Movimentos como o Mães de Manguinhos, formado por mães e familiares de vítimas da violência, atuam no acolhimento de mulheres negras e na luta por justiça. “Pode passar mil anos, mas uma mãe nunca vai esquecer do filho que veio a óbito por intervenção b, relata Eliene Vieira, uma das fundadoras do grupo. A dor dessas famílias é o retrato de uma cidade que precisa urgentemente de políticas públicas que protejam a vida.
Dados assustadores: 698 baleados em cinco meses
Os números da violência armada no Rio de Janeiro em 2026 são estarrecedores. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, entre janeiro e maio deste ano, 698 pessoas foram baleadas na região metropolitana. Desse total, 367 foram atingidas durante troca de tiros com participação policial, o que representa mais da metade das vítimas. Nessas ações, 181 pessoas morreram e 186 ficaram feridas.
Só no mês de junho, 98 pessoas foram baleadas, sendo 59 mortas e 39 feridas. Em média, a cada três tiroteios registrados, um está ligado a uma ação policial. Além disso, o número de baleados em assaltos também cresceu: foram 101 pessoas atingidas entre janeiro e abril deste ano.
Para o coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado, Carlos Nhanga, as operações policiais em favelas não podem ser tratadas como solução. “Quando a polícia diz que foi combater roubos, homicídios e exploração infantil, está justamente nomeando crimes que exigem investigação, inteligência e perícia para serem enfrentados de verdade. Esses crimes não se resolvem com confronto armado no meio de uma favela”, afirmou.

Uma pesquisa com 4.080 moradores de quatro grandes favelas do Rio, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha, mostrou que 73% são contra as operações policiais e 92% dizem que elas precisam mudar.
A vida que segue, mas a dor que fica
Karolaine, Maiky, Leda e Zé Badu são quatro moradores de favelas da Zona Norte do Rio que tiveram suas vidas interrompidas pela violência armada em menos de 30 dias. Cada um deles tinha uma rotina marcada por trabalho, estudo e convivência comunitária.
Karolaine, de 28 anos, catava reciclagem e ajudava a família. Maiky, de 16, treinava luta e sonhava com o futuro. Leda Maria, conhecida como Tia Leda, mantinha uma padaria em Vigário Geral. Já João José da Silva, o Zé Badu, de 80 anos, era morador antigo da Chácara do Céu e figura conhecida na comunidade.
Os quatro se somam às estatísticas da violência armada no Rio de Janeiro. As mortes refletem o impacto direto dos confrontos armados no cotidiano das favelas, afetando famílias, escolas e o comércio local.
