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Eleições 2026: O que Lula e Flávio prometem para as favelas?

Plano de governo do Lula cita favelas e periferias mais de dez vezes. O de Flávio não usa a palavra favela nenhuma vez. Moradores esperam respostas sobre educação, saúde, emprego e segurança

Foto: Tuane Fernandes/NurPhoto/AFP
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Quem mora na favela já conhece a promessa que chega junto com a eleição. Por isso, o Voz das Comunidades leu os planos de governo de dois candidatos à Presidência da República: o de Lula, do PT, com 84 páginas, e o de Flávio Bolsonaro, com 76 páginas. A pergunta era simples. Quanto espaço a favela ocupa nesses papéis e o que cada um promete para a comunidade?

Favela aparece pouco nos dois planos

Na contagem de palavras, o plano de Lula usa “favela” duas vezes e “periferia” outras nove, ao falar de cidades. O plano de Flávio Bolsonaro não usa “favela” nem “periferia” em nenhum momento. A palavra “comunidade”, no sentido de bairro onde o povo mora, aparece uma só vez, no trecho em que ele fala de tirar áreas das mãos de facções criminosas. Nos dois planos, não existe um capítulo só para a favela. Ela surge no meio de assuntos maiores, como segurança, moradia e saneamento.

Segurança pública: dois jeitos de enfrentar o crime

Na segurança pública, os dois planos têm jeitos bem diferentes de ver o problema. Flávio Bolsonaro promete declarar facções como o PCC, o CV e as milícias como organizações “narcoterroristas”. Diz que bandido armado com fuzil será abatido pelas forças de segurança e que vai fazer parcerias com estados e municípios para a retomada de territórios. Promete dobrar o dinheiro federal para a segurança, criar meio milhão de vagas em presídios, colocar mais de um milhão de câmeras pelo país e reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Sobre as comunidades, o plano diz que vai retomar as áreas dominadas por facções para devolver aos moradores a liberdade de ir e vir.

Lula fala em combater o crime organizado com o que chama de repressão qualificada. O plano cita a Lei Antifacção, aprovada em 2026, e a estratégia de secar o dinheiro das quadrilhas. Promete reforçar o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que inclui a retomada de territórios e R$ 10 bilhões para estados e municípios investirem em equipamentos e infraestrutura. Também promete polícia mais próxima da população, mais câmeras nos uniformes dos policiais e mais controle sobre a ação policial. O trecho que fala da favela diz que, junto com a repressão e com a participação das comunidades, o governo vai investir de forma contínua na urbanização de favelas e periferias, na melhoria dos espaços públicos e no acesso a serviços essenciais, para estimular atividades legais e diminuir o espaço do crime.

Urbanização e infraestrutura: casa, obra e esgoto

Em urbanização e infraestrutura, a diferença aparece no tamanho do texto. O plano de Lula tem um programa com nome para a favela, o Periferia Viva. Segundo o plano, o governo retomou 85 obras que estavam paradas ou lentas e escolheu outras 59 propostas, com a promessa de dinheiro garantido para terminar todas no próximo mandato. O plano também diz que vai manter e ampliar o Minha Casa, Minha Vida, reservar R$ 25 bilhões do Novo PAC para segurar encostas e melhorar a drenagem em áreas de risco, e dar preferência às favelas e periferias na chegada de água tratada e esgoto.

Flávio Bolsonaro promete trazer de volta o Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de casas e juros os mais baixos possíveis. Promete também urbanizar áreas degradadas para evitar deslizamentos em encostas e ajudar na regularização das terras, para a família que mora há anos no mesmo lugar ter a escritura no próprio nome, de preferência no nome da mulher. Sobre água e esgoto, o plano diz que vai garantir o Marco Legal do Saneamento e acelerar as concessões e parcerias para levar o serviço a todos.

Economia e emprego: apoio ao pequeno negócio e carteira assinada

Na economia e no emprego, o plano de Lula fala em fortalecer a economia popular e solidária, com apoio a empreendedores populares, trabalhadores informais, catadores e cooperativas. Promete crédito com orientação, cursos, ajuda técnica e proteção para quem trabalha por conta própria, como aposentadoria e amparo em caso de doença. Lembra ainda que o MEI foi ampliado e que foram criadas linhas de crédito para motoristas de aplicativo comprarem carro e moto.

Flávio Bolsonaro aposta em tornar mais barato contratar com carteira assinada. Propõe um contrato para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego e outro para quem tem 50 anos ou mais e está desempregado há pelo menos um ano. Cria o “Minha Primeira Empresa”, com menos burocracia e crédito pela Caixa, e o “Ganha-Ganha”, que dá acesso a crédito e juros menores para quem conclui curso, abre negócio ou mantém as contas em dia. O plano também promete manter os programas sociais, com prioridade nos cursos e nas vagas para quem recebe benefício.

O que os moradores esperam do próximo presidente

Além do que está escrito no papel, o Voz das Comunidades quis ouvir quem vive o dia a dia. Dois jovens moradores responderam à pergunta: o que você espera do próximo presidente da República?

Anderson Luiz, 26 anos, morador no Morro da Formiga, destaca. “Eu acho que o que a gente, que mora na comunidade, espera do próximo presidente do Brasil é, acima de tudo, uma vida mais digna para nossas famílias. A gente quer ter emprego, salário que dê para pagar as contas, colocar comida dentro de casa e viver com mais tranquilidade. Também esperamos mais investimento na educação, na saúde, na segurança e em oportunidades para os jovens, para que eles tenham um futuro melhor e não precisem enxergar o crime como uma saída.”

Anderson Luiz – Foto: Reprodução

Emilly Assunção, 26 anos, moradora do Morro do Salgueiro, quer que o próximo presidente se importa mais com as favelas e periferias. “Eu espero que o próximo presidente da República olhe as favelas e periferias com mais carinho e atenção, promovendo impacto real e investindo em oportunidades, em saúde e educação para que a gente tenha direito a uma vida digna e com plenos direitos. Desejo que o presidente nos dê a chance de viver e não de apenas sobreviver.”

Emilly Assunção – Foto: Reprodução

O que os planos dizem sobre esses pedidos

Anderson pede emprego, salário, educação, saúde, segurança e chances para os jovens. Sobre emprego, o plano de Flávio Bolsonaro traz o contrato do primeiro emprego e a redução do custo da carteira assinada. Para a educação dos jovens, promete mais ensino técnico no ensino médio, escola em tempo integral e esporte nas escolas depois da aula, e na saúde, ampliar a Estratégia Saúde da Família. O plano de Lula fala em melhorar o Pé-de-Meia, que apoia os estudos dos jovens, manter os cursinhos populares e expandir os institutos federais, com prioridade para as periferias urbanas. Na saúde, promete manter o Farmácia Popular e criar mais pontos de retirada de remédios nas periferias das grandes cidades.

Emilly pede que o presidente olhe para as favelas e periferias. Nesse ponto, o plano de Lula cita as duas palavras e tem um programa com nome, o Periferia Viva. O plano de Flávio Bolsonaro não usa essas palavras, mas fala em retomar áreas de facções, urbanizar áreas degradadas e dar escritura às famílias.

Ambas as candidaturas traçam diretrizes estratégicas e sinalizam prioridades econômicas, mas evitam incluir um orçamento discriminado item a item para suas propostas.

Promessa no papel, cobrança na rua

No fim, a favela é citada nos planos, mas ocupa pouco espaço diante do que representa para quem vive nela. Vale lembrar que plano de governo é promessa, e não garantia. Quem decide se ela sai do papel é o povo, que pode cobrar depois da eleição.  Os dois programas de governo podem ser lidos na íntegra no sistema de divulgação de candidaturas do TSE.

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