Ir para o conteúdo

Educar é um ato de reparação histórica: a importância da educação popular no CPX do Alemão

No Complexo do Alemão, educadores populares constroem, há décadas, a garantia da educação como ferramenta de transformação social

Tia bete e Leanderson atualmente atuam em conjunto na Oca dos Curumins, ela cede o espaço para o funcionamento de dois pré-vestibulares. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

Em agosto de 2005, veio ao mundo a primeira edição do Voz da Comunidade, um jornal feito para dar voz aos moradores do Complexo do Alemão. A ideia é assinada por Rene Silva, que com apenas 11 anos, funda o maior jornal comunitário do Rio de Janeiro. Mas nada disso seria possível sem o apoio de duas professoras da sua escola. A educação mudou a vida de Rene e a forma de comunicar nas favelas cariocas. Mudou também a vida de muitos moradores, e continua sendo o caminho para transformar realidades e territórios. É por meio dela que sonhos nascem, crescem e se realizam. 

“O sucesso do Voz das Comunidades deve muito à educação, à educação que eu tive, aos acessos à educação que eu tive, e essa educação de escola pública foi fundamental”, destaca Rene Silva. 

Monica Teixeira, Rene Silva e Talma Romero, as duas mulheres são professoras fundamentais para o surgimento do jornal Voz das Comunidades. Foto: Arquivo pessoal / Reprodução.

A luta é pela educação gratuita e de qualidade. É por isso que diversos educadores do território fazem o que for necessário pela garantia desse direito todos os dias. “A escola tem um papel muito importante na vida desses jovens. Ela deve estimular e motivar os alunos a desenvolverem suas habilidades”, diz Mônica Teixeira, professora do Renê. “É muito gratificante quando vemos o crescimento e o desenvolvimento de um aluno ultrapassar os muros da escola, principalmente quando o trabalho realizado por ele modifica e causa impacto positivo na vida de outras pessoas”, completa.  

No Complexo do Alemão, os educadores também ultrapassam as linhas da educação tradicional e formam um elo de acolhimento, carinho e aprendizagem que representa a educação popular. Lucia Cabral, conhecida como tia Lucia, professora, articuladora e idealizadora do EDUCAP, defende a necessidade de uma aprendizagem de excelência ainda no ensino fundamental. “Você só vai ter uma comunidade mais saudável, mais pensante, se você tiver uma educação de base que realmente alfabetize”, diz. Mas para além disso, tia Lucia acredita que a unidade escolar precisa ser mais do que um espaço de ensino, “deveria ser um prato saboroso, um lugar que incentivasse.” 

Tia Lucia é responsável pelo Educap, ONG localizada no Campo do Sargento. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades.

Garantir o direito à educação é uma forma de enfrentar desigualdades e lutar por justiça. “Sempre vai existir a necessidade, a fome, sempre vai ter alguém precisando de um estudo, sempre vai ter alguém precisando ser alfabetizado. Isso não é de hoje. Começou lá atrás, quando jogaram os nossos na rua, em 1888, e ali foi proibido tudo. Em primeiro lugar, a educação”, fala Elisabete Aparecida, a Tia Bete, responsável pela Oca dos Curumins, espaço de ensino e cultura.  “A gente tem que lutar muito, (…) os que acreditam na educação, que acham e têm certeza de que é através da educação que vai fazer diferença”, afirma. 

Leanderson Guedes é estudante de Pedagogia e orientador pedagógico. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades.

É nessa mesma perspectiva que atua Leanderson Guedes, estudante de pedagogia e orientador pedagógico dos pré-vestibulares social +Nós e Jovelina Pérola Negra. Para o orientador, a educação popular é muito mais do que sala de aula, “a educação popular ela tem essa questão com a construção. (…) Existe toda uma questão de uma educação libertadora, uma educação freireana e uma educação de afetividade, sabe? De entender os atravessamentos desses alunos, porque muitos deles vêm de um dia que é muito difícil”, diz Leanderson.  

Por isso, a construção do campus do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro) no Complexo do Alemão representa muito mais do que um prédio novo: é a possibilidade de um futuro diferente. “Esse acesso é negado desde muito cedo”, diz Leanderson. “Se a gente pensa em um IFRJ do Alemão, a gente tem que direcionar esse equipamento para as pessoas que são do território do Alemão. E a gente precisa preparar essa galera. Então, é alfabetizar eles, é preparar para projetos, é preparar para a prova, é fazer toda essa articulação para quando chegar no momento do vai ou racha, eles irem”, reforça. 

O IFRJ do Alemão é o primeiro equipamento público de ensino superior na favela. O Fórum de Ação Popular do CPX, formado pelo Plano CPX que instituiu metas em diversos âmbitos do território, acompanhou a visita técnica, que ocorreu em fevereiro. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades.

O orientador pedagógico também fala sobre a importância de apresentar as possibilidades para esses jovens, que muitas vezes nem sabem que tem, “eles não sabem que, ao ingressar na universidade, tem um plano de assistência estudantil. Talvez eles não precisem trabalhar de primeiro, eles podem sim viver desse plano, que eles podem sim acumular esse plano com o Bolsa Família. Eles têm o direito de estudar, que eles não precisam cair de cabeça em um mundo de trabalho”, explica Leanderson.