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Duas décadas de história: Criado por Rene Silva, Voz das Comunidades continua transformando vidas e ampliando vozes nas favelas do Rio

Desde 2005, Jornal Voz das Comunidades completa 20 anos de potência social, informação, resistência, se tornando referência nacional e internacional

Arte: Tamires Aragão
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A sala da casa de sua avó Nancy, no coração do Complexo do Alemão, não era grande, mas nela cabiam sonhos gigantes e um desejo profundo de fazer a diferença em seu território. Foi nesse local, em 2005, na primeira redação do jornal Voz das Comunidades, liderado por Rene Silva, Gabriela Conc e Renato Silva, que o destino de um território inteiro seria modificado.  

Renato Silva, Diretor Operacional e Financeiro, Rene Silva, Presidente e Fundador do Voz e Gabriela Conc, Diretora Executiva Foto: Arquivo pessoal 

E quem assistia a cena das três crianças reunidas na sala construindo sonhos, era Lúcia Cabral, amiga de longa data e frequentadora da casa de Vó Nancy. “Se eu fechar os olhos, eu consigo lembrar dele descendo para a salinha que tinha um computador. Ele sentado e Renato do lado com uma câmera maior do que ele pendurada no pescoço. Consigo me lembrar de todo o processo e de todo o sonho”, conta Lúcia Cabral, com um sorriso no rosto. Lúcia, moradora do Complexo do Alemão, é coordenadora do Educap, uma organização não governamental que leva educação a moradores do território. Lúcia, assim como diversos outros moradores, teve a sua vida transformada através do jornalismo comunitário do Voz ao longo desses 20 anos de história.  

Dona Nancy, avó do Rene e Renato Foto: Renato Silva / Voz das Comunidades 

“Eu acredito que a força maior do Voz começa lá na ocupação da UPP no território, em 2010. Mas antes disso o jornal já ampliava as vozes dos moradores. Mas a partir da ocupação começamos a mexer com as políticas públicas e a impulsionar a cobrança do poder público. E também foi aqui que o Voz ajudou a mostrar para a comunidade a importância do voto. Eu confesso que coleciono os jornais, porque é como se fosse a gente, moradores, escrevendo. Vivenciamos tudo que está ali e dessa forma acabamos expondo as nossas dores e o desejo por mudança”, relembra Lúcia. 

Lúcia Cabral acompanha o Voz desde os seus primeiros passos e guarda exemplares do jornal.
Créditos: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades 

Rene Silva, criador do Voz das Comunidades, conta que a ocupação do Complexo do Alemão foi um marco primordial para o crescimento do Voz. “Depois da ocupação, nunca mais voltamos com a redação para casa da minha vó. Tivemos um salto muito grande”. Ele explica que a chegada das UPPs no Complexo do Alemão e episódios como o de Ágatha Félix, criança morta durante uma operação policial no território, marcaram a trajetória do jornal. “Fomos o principal veículo de comunicação, o primeiro a noticiar sobre esses casos. E a partir da nossa cobertura, esses casos ganharam repercussão nacional e internacional”, conta. 

Rene Silva sempre sonhou alto, mas nunca imaginou que o Voz se tornaria a potência que é hoje. “Eu sonhava em poder conquistar outras comunidades, estar em outros espaços. E hoje, ver isso se tornando realidade é incrível. Seja através do jornal impresso, do portal, do audiovisual, de todas as plataformas que nós temos de comunicação. É importante porque a gente vê um avanço da comunicação comunitária, um avanço da pauta que lá atrás ainda era algo muito difícil de se discutir.” 

Renê Silva conta que sempre sonhou muito e tem grandes planos para os próximos 20 anos de Voz das Comunidades Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades 

Esse desejo por mudanças e melhorias locais é um ato coletivo. E para a construção do que o Jornal Voz das Comunidades se tornou no decorrer dessas duas décadas, muitas lideranças locais e ONGs foram imprescindíveis. É o caso do Instituto Raízes em Movimento, uma instituição que atua desde 2001 no território, promovendo o desenvolvimento humano e cultural, além de ser um braço de memória e conhecimento local. “A criação do Voz é um marco importante para a favela, sobretudo por ser uma iniciativa de jovens que, mesmo novos, demonstraram preocupação com o território. O trabalho de jornalismo comunitário desempenhado por eles carrega um papel crucial em amplificar as vozes das comunidades locais, promovendo a participação ativa dos cidadãos e abordando questões relevantes para a comunidade. Isso ajuda a construir uma sociedade mais justa e democrática”, ressalta David Amen, co-fundador e coordenador de comunicação do Instituto Raízes em Movimento.  

Os próprios moradores de favela levavam a informação para os demais.  
Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades 
Uendell Vinicius / Voz das Comunidades 

A criação do jornal Voz das Comunidades também contribui principalmente para a preservação da memória e da história local de maneira verdadeira, registrando eventos, histórias e experiências da população do território do Alemão e de tantas outras comunidades. “É um reforço da identidade e do senso de pertencimento dos moradores ao território. Isso permite que eles se reconheçam e se orgulhem de sua história e cultura”, conta David. 

Para além do orgulho da história de seu território, o Voz tem se mostrado um transformador social. Rene se emociona quando olha o que o jornal se tornou. “Quando a gente mostra um problema social, a gente cobra do poder público e esse problema social é resolvido. É incrível. Fico tocado com o poder de transformar a vida das pessoas a partir do momento que a gente conta histórias de iniciativas e projetos sociais e culturais que existem aqui dentro. E o projeto começa a ganhar visibilidade, a receber recursos e a crescer cada vez mais. Isso é muito poderoso! É uma forma de mudar a vida dessas pessoas.” 

Facilitando a comunicação do território, o jornal também promove a participação ativa da comunidade em questões locais, fortalecendo a coesão social e a cidadania. E uma personagem central neste eixo é ativista e moradora do Complexo do Alemão, Camila Moradia. Camila é referência quando o assunto é luta por moradias populares. “Todas as vezes que temos algum problema, a gente aciona o Voz e então uma equipe aparece para cobrir seja o problema de rua ou uma audiência pública. Isso faz toda a diferença. Por exemplo, nós acabamos de ter uma entrega de moradias populares que foi super frustrada e aí acionamos o Voz. Então, acho que democratizar o acesso à informação é fundamental. Para além de amplificar as nossas vozes, o jornal faz ponte com o poder público. E isso, eu acho que é a parte fundamental”, conta a ativista.  

Camila Moradia é moradora do CPX e ativista. Ela acredita que o papel fundamental do jornal é democratizar a informação. Créditos: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades 

O jornal Voz das Comunidades ganhou tanto a confiança dos moradores de comunidades do Rio, que se tornou o microfone da favela. E mesmo conquistando muito em 20 anos, o sonho não para. Para Rene, existe a necessidade de formar a próxima geração para que as favelas nunca fiquem desamparadas. “Temos o sonho de criar a Escola de Comunicação Voz das Comunidades, para que existam novos ‘Renes’, e vamos lançar em breve a TV Voz”, conta animado e esperançoso com o futuro. 

Hoje, duas décadas depois daquela salinha apertada na casa da Vó Nancy, o Voz das Comunidades se tornou mais do que um jornal: virou farol, memória viva e ferramenta de transformação. A cada história contada, uma realidade é iluminada. A cada denúncia feita, uma esperança é reacendida. E enquanto houver uma criança sonhando no alto do morro, enquanto houver injustiça a ser revelada, enquanto houver moradores querendo contar suas próprias histórias, o Voz vai continuar ecoando. Porque a favela tem voz e fala. E o mundo, enfim, escuta. 

Nestes últimos 20 anos, foram distribuídos mais de meio milhão de exemplares para moradores de favelas. Fotos: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades