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Driblando barreiras, moradora do Alemão se forma em Educação Física nos Estados Unidos

Sara Rodrigues dos Santos de Oliveira, de 23 anos, já está na segunda faculdade e é treinadora de um time de futebol infantil nos Estados Unidos
Segurando o diploma na localidade onde foi nascida e criada Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Segurando o diploma na localidade onde foi nascida e criada Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

O esporte abre muitas portas e já mudou a vida de vários crias de favela. Sara Rodrigues dos Santos de Oliveira, de 23 anos, é um exemplo vivo disso. Desde que se entende por gente, ela é apaixonada por futebol. Mas, atualmente, após passar por várias dificuldades para permanecer em outro país, é treinadora de um time infantil nos Estados Unidos.

Nascida na Pedra do Sapo, Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, Sara ganhou, por meio do futebol, uma bolsa de estudos em 2018 para a Barton Community College, no estado do Kansas, Estados Unidos, onde se formou com honra. Contudo, nem tudo foi um mar de rosas, principalmente vindo de onde ela vem.

O trajeto até a conquista

Sara, aos 10 anos, entrou para o clube do Vasco da Gama, realizando seu grande sonho como jogadora de futebol. A mãe, dona Fátima, conta que não gostava da ideia, mas que mesmo assim levou a filha até o Vasco, onde ela ficou cerca de três anos. Quando foi afastada do clube, sem nenhuma justificativa dada, conta que foi um momento de muita reclusão e tristeza. Com isso, não conseguia nem mais assistir aos campeonatos de futebol, mesmo sendo grande fã da Marta.

Sua mãe relata que ela se inspirava muito na jogadora alagoana e que chegava a chorar por estar longe do campo. “Eu não consigo ficar parada. Tô sempre treinando”. Então, a atleta jogou futebol de areia no Botafogo, no Barcelona do Rio de Janeiro e também no Flamengo depois do que aconteceu. Em nenhum dos clubes ela recebia para jogar. Estava sempre presente por amor e pela determinação que a movia. 

Aos 18 anos, a jogadora conseguiu uma bolsa para cursar Direito, na Universidade Cândido Mendes. No campeonato de final do ano, começou a jogar bola no time masculino, que era “o que tinha”, diz. Até que um de seus amigos comentou que conhecia um cara que trabalhava com intercâmbio. “Eu perguntei: ‘sério?’. Mas não sabia nem o que era”, disse, rindo. Em um único jogo, conseguiu material suficiente para fazer o que chamam de “highlights”, que seriam os melhores momentos; um vídeo produzido justamente para enviar às universidades. Outras pessoas costumam jogar de três a cinco jogos para enviar os highlights e ele ficou impressionado que a cria do Alemão fechou em apenas um. 

O intercâmbio

Ao se mudar de país, mudou também de curso. “Como os Estados Unidos me deram a oportunidade de jogar bola e estudar, eu fui estudar Educação Física”, disse, explicando que logo no primeiro semestre sofreu uma lesão que a fez perder tudo. “Eu sempre joguei como zagueira, mas fui escalada como lateral. Isso somado ao frio, eu imagino, fez com que eu me machucasse e rompi um ligamento”, relembra. Ao se machucar, Sara foi substituída e perdeu sua bolsa. Foi quando todo o perrengue começou, mas em nenhum momento a fez pensar em desistir. Pelo contrário!

“Eu não tinha lugar pra ir e topei morar com uma menina que trabalhava na faculdade. Era um local bastante afastado e perigoso. Também não tinha internet”, relatou. Sara andava 1h30 de bicicleta todos os dias até chegar na faculdade.

Até que foi “adotada” por um casal, que ela chama carinhosamente de seus “avós”. Eles a abrigaram e ajudaram a jogadora e prosseguir com seus sonhos. Nesse meio tempo, ela também conheceu no Walmart, por sorte ou destino, uma mulher que já havia visitado o Brasil 28 vezes. “Ela me ouviu falar português e veio conversar comigo. Nisso, essa moça disse que iria me assistir jogar um dia. Foi quando eu disse que não veria, já que eu não estava mas no time por estar com o ligamento rompido. Descobri que esta senhora era dona de um hospital! Daí, ela ligou para o reitor da faculdade e disse: ela se machucou aí e vocês terão que dar um jeito de pagar a cirurgia dela'”, recordou.

Isso tudo foi em maio, em agosto o ligamento já estava restaurado. “Eu treinei todos os dias. Trabalhava na creche, na cafeteria e na academia. Quando tinha jogo de futebol, eu tinha que trabalhar pegando bola e, pra mim, era uma humilhação. “Comecei a treinar sozinha depois que fiz a cirurgia. Meu antigo técnico me viu e disse: ‘você não vai desistir?’. Eu disse que não, que era a única coisa que eu tinha. Ele me convidou para voltar para o time e voltei”, contou.

Sara ama o esporte que pratica. No sofá, estão algumas e suas medalhas.
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

“Eu passava a madrugada inteira mandando vídeo pra faculdade. Se eu não conseguisse uma boa bolsa de estudos, eu teria que voltar, coisa que eu não queria”, relata Sara, que, após se formar em Educação Física, está estudando para ser treinadora profissional. Hoje, ela está atuando como técnica de um time infantil: o Georgetown FC.

Sara, mesmo após enfrentar vários obstáculos, desabafa que o maior desafio ainda é a comida. “Misericórdia! A comida é meu desafio até hoje. Lá não tem arroz! Nessa nova faculdade, eu chego na cafeteria e a moça já aponta para a panela sinalizando que tem arroz”, riu. E, ressalta que não se arrepende de nada, já que a experiência lhe rendeu maturidade. Por fim, finaliza dizendo que “pretende levar os pais pra conhecer os Estados Unidos, o lugar que mudou sua vida”.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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