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Documentário ‘Complexo do Alemão: Vozes que Ecoam’ emociona na estreia

Trabalho resgata memórias das mobilizações dos anos 1980 e homenageia mulheres que foram protagonistas na luta por melhorias na comunidade

Documentário estreou no sábado, 27 de junho Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Foi um sábado de emoção, memória e resistência no Complexo do Alemão. No dia 27 de junho, o Cinecarioca Nova Brasília, em Bonsucesso, recebeu a estreia oficial do documentário Complexo do Alemão: Vozes que Ecoam, produção do Instituto Raízes em Movimento. A programação começou cedo, às 9h, com um café da manhã comunitário, seguido por uma apresentação do Slam Laje, batalha de poesia que trouxe a força da palavra falada para aquecer o público. A exibição do filme foi seguida por um debate, em que moradores puderam trocar ideias com a equipe e as lideranças retratadas na obra. A entrada foi gratuita.

Slam Laje Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Estreia do documentário Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

O documentário faz um mergulho na história do Complexo do Alemão, com foco nas mobilizações da década de 1980, um período de redemocratização do país em que a luta por direitos básicos ganhou força dentro das favelas. Naquela época, faltava de tudo: água encanada, luz elétrica, saneamento básico. E foram os próprios moradores, organizados em associações, que foram atrás de soluções. O filme mostra como essas conquistas não vieram de graça. Chegaram da união e da coragem de pessoas que se recusaram a aceitar o abandono do poder público.

O grande destaque da produção são as mulheres. Mulheres como Odete Alves, que foi a primeira presidente mulher de uma associação de moradores no Alemão, e outras lideranças femininas que colocaram a mão na massa para transformar a realidade do território.

Quem esteve no evento sentiu na pele o peso e a beleza dessa história. Tia Bete, que foi da diretoria da associação de moradores ao lado de Odete e também participa do documentário, falou com o coração aberto sobre a emoção de ver a comunidade assistindo ao filme. “É emocionante porque você percebe que tudo que você fez durante a sua trajetória não foi em vão. E a certeza de que a continuidade é certa.”

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Tia Bete, uma das diretoria (Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades)

Para ela, a mensagem para a nova geração é simples e direta: é hora de agir. “Não pense muito. É agir. Agir com o que você tem, com o que você pode. Sem muito planejamento. Começa a iniciar o seu projeto que o resto vai acontecendo.” E, quando perguntada se a luta ainda continua, Tia Bete foi categórica. “A luta continua. Continua e vai continuar ainda por muito tempo, muito tempo. Ainda temos muita luta pela frente.”

Maria de Fátima, outra veterana que integrou a diretoria da associação e também está no filme, não conteve a emoção. “Muita emoção, muita alegria por eu estar viva, né? Que eu passei um momento muito difícil de saúde, por eu estar aqui para assistir”, contou. Ela destacou a importância de ver o resultado de tantos anos de batalha. “Nós plantamos e hoje nós estamos vendo o fruto aqui no Complexo do Alemão.” Com 69 anos de moradora, ela faz questão de valorizar o território. “Sou muito feliz pelo Complexo do Alemão. Não é o que o povo fala, é conviver, passar aquilo que se passou hoje. O que eles mostraram, tudo é verdadeiro.”

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Maria de Fátima, uma das diretoria (Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades)

Maria de Fátima também deixou seu recado para a juventude: continuar a luta e cuidar do que foi conquistado. “Eu digo para essa nova geração continuar com a nossa luta, né, pelo certo. E eles lutarem para conservar o Complexo do Alemão, principalmente a Joaquim Queiroz, a Brasília, a Alvorada, a Central, né? E outros mais.” Ela lembrou ainda do legado que está deixando: seis filhos, 16 netos e quatro bisnetos. E, sobre a luta, reforçou. “Continua, porque eles precisam. Eu ajudo muito, o que eu posso ajudar: com palavra, na necessidade… Eu sempre estou junto com as presidentes.”

David Amen, diretor do documentário, é cria do Alemão e contou como foi o processo de produção. O filme nasceu dentro do projeto FavelaDoc 3.0, uma iniciativa do Instituto Raízes em Movimento que forma jovens do complexo em audiovisual e cinema. O trabalho começou em 2021, em plena pandemia, com poucos recursos foi viabilizado por uma emenda parlamentar. “Foi um processo de cinema independente, de cinema de guerrilha, a partir da formação de jovens no meio da pandemia”, explicou David.

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Diretor e Cofundador do Instituto Raízes em Movimento (Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades)

O grande desafio, segundo ele, foi fazer um recorte de 38 minutos a partir de mais de cinco horas de entrevistas. “A parte mais difícil foi essa, cara. Tentar traduzir esse recorte da década de 80 em 38 minutos, quando eu tive mais de quatro, cinco horas de entrevista. São histórias bonitas, histórias belas, histórias boas de se contar, de se revisitar.” Ele destacou a importância de conhecer a história que nem mesmo quem nasceu na comunidade conhecia direito.

Por fim, David deixou uma mensagem para as novas gerações:

“A mensagem que eu posso deixar a partir desse filme é que a gente olhe para o nosso passado, para os nossos ancestrais, para quem veio primeiro. E que a gente valorize isso e que a gente não deixe esse legado escapar da nossa realidade, não deixe morrer esse legado que essas pessoas, quando começaram a desenvolver projeto social, política pública, lutar por melhorias na comunidade, não era na nossa geração. Não tinha internet, não tinha telefone, não tinha nada! Era só a vontade de mudar.”

E completou. “A gente precisa valorizar essa vontade de mudar que essas pessoas tiveram e a gente ter isso como princípio também. E sempre respeitar esse nosso passado, essas lutas passadas.”

O Complexo do Alemão: Vozes que Ecoam é mais do que um documentário. É um registro vivo da força de um povo que, mesmo diante de tantas dificuldades, nunca parou de lutar. E, como disseram Tia Bete e Maria de Fátima, a luta continua.

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