Um nome que chega com a mesma força da favela: Benedita da Silva. Para os mais íntimos, Bené. Mulher negra, cria do Chapéu Mangueira, comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro, desde 1942 tem sua vida marcada por lutas em defesa dos direitos humanos e das pautas sociais. De ampla representatividade, aos 83 anos, segue firme em sua caminhada, combatendo o racismo enquanto carrega o fardo e o orgulho da representatividade política para quem veio depois.
Bené, que já foi vereadora, deputada constituinte, ministra e governadora do Rio, nos recebeu em seu gabinete, próximo à Alerj, no Centro do Rio de Janeiro. A presença da parlamentar é emblemática; sua figura carrega o peso e o brilho de uma trajetória longa. “E trajetória muito inesperada”, começa ela, ao falar sobre o primeiro ponto que mais destaca em sua vida política. “Eu não pensei que alguém fosse votar em mim, né? Ainda mais partindo das minhas bandeiras: mulher negra, favelada. Mas conseguimos. E a vereação, para mim, foi a minha primeira escola. Foi como se eu tivesse entrado numa universidade.”
Nessa etapa, Bené pautou os direitos das trabalhadoras domésticas, função que exerceu antes da vida política. “Minha mãe lavava roupa para o Juscelino Kubitschek e eu entregava.”
A cada passo dado dentro do ambiente político, Bené abria espaço e voz para as mulheres. “No Senado, defendi o direito de 30% de vagas para mulheres. E, de volta ao Poder Executivo, trabalhei na criação do primeiro Ministério de Assistência Social do primeiro Governo Lula.”

Hoje, Benedita da Silva carrega o brilho da ancestralidade, a sabedoria e o peso simbólico da representatividade. Abordar pautas de favelas e periferias é um fardo constante: o de uma figura icônica que inspira e resiste. “Você ser a primeira em alguma coisa, por mais sucesso que você tenha, cria muitas expectativas. E você se vê num espaço limitado. E é nesse espaço que você tem que travar batalhas, dependendo da bandeira que você levanta.” Quando o assunto é racial, o desafio, segundo ela, é ainda maior. “Eu sofri na pele em alguns espaços por onde passei. Mas eu sabia que tinha uma coisa muito mais forte que isso. Eu lembrava e via as mulheres da favela, via as mulheres negras… E via a possibilidade de a gente começar uma nova batalha por esses espaços.”
Do ponto de vista da deputada, a política mudou muito. Os prédios de Brasília continuam os mesmos, mas os rostos nas bancadas, para ela, adotaram um modo violento de fazer política. “Eu nunca vi um Congresso como o nosso. Não há um momento em que você possa realmente politizar ou fazer um debate político. Você tem um pouco de vergonha, sabe? Vergonha do que vê e vergonha do que ouve. O Brasil não merece. Nós sempre tivemos direita, esquerda e centro — e sempre houve equilíbrio. Víamos isso nos debates, além da presença do respeito. Hoje, é um desrespeito total.”
Almejando uma nova etapa de sua trajetória, a pré-campanha de Bené ao Senado começa a ganhar forma. Recentemente, Neguinho da Beija-Flor, que chegou a ser cotado para disputar o cargo, declarou apoio ao nome de Benedita. Ela afirma que ainda não oficializou a candidatura e que o movimento partiu de lideranças negras e periféricas que indicaram seu nome. “Porque nós sabemos que haverá um grande enfrentamento no Senado. A direita se prepara para ser maioria lá. E nós já vimos, né? Os exageros. Querem aplicar o impeachment em membros do Supremo, no presidente da República, extinguir a comissão de ética… Todas essas coisas horrorosas que nós estamos assistindo. Então, é preciso que nós tenhamos nossa organização e articulação para que negros e negras cheguem até lá.”
Mesmo com o período eleitoral se aproximando e marcando mais uma etapa de sua trajetória política, Bené ressalta que nunca deixou de lembrar de onde veio. Suas raízes, fincadas no alto do Chapéu Mangueira, moldaram o nome que hoje ecoa na história do Brasil. “Hoje não moro na favela, mas tenho minha família morando lá. Sei que as coisas mudaram, evidentemente, muito, mas uma coisa está existindo: a comunidade tem voz. E antes, essa comunidade não era ouvida.”
Costurada pela militância, com os pés no chão e o olhar firme no futuro, Benedita da Silva celebra o que conquistou, pelos e para os que sempre lutou. E faz questão de reafirmar: “Eu continuo subindo na favela. Meu coração ainda pulsa pela favela. Meu coração ainda pulsa por todos os negros e negras que tombam nas favelas. Meu coração ainda pulsa pela injustiça na comunidade.”

Créditos: Gustavo Bezerra
