“A esperança sustenta a vida em meio à tempestade; que meus amigos professores não percam o esperançar!”, declara Aline Xavier, 44 anos.
O Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro desde 1963, remonta históticamente ao decreto de Dom Pedro I, em 1827, que determinou a criação de escolas de ensino elementar em todas as cidades, um marco para a educação nacional. No entanto, foi Antonieta de Barros, a primeira deputada negra do Brasil, quem propôs, em 1948, a lei que instituiu a data no estado — 15 anos antes de o reconhecimento nacional, sancionado pelo então presidente João Goulart, em 1963.
A data simboliza o reconhecimento do papel essencial dos educadores na sociedade brasileira. A conhecida máxima “todas as profissões passam pelo professor” reforça a relevância desse profissional na formação de cidadãos e na construção do conhecimento. “Traz a reflexão, faz a pessoa se tornar crítica”, destaca a professora.
Desde jovem, Aline sempre demonstrou interesse pela leitura e pelo ensino religioso. Atualmente é coordenadora do grupo de jovens da Paróquia Nossa Senhora das Graças. Para ela, a literatura é parte essencial de sua identidade, assim como o contato com as pessoas. “É muito interessante lidar com o ser humano, mesmo que, às vezes, seja desgastante”, admite. A professora também procura desmistificar temas como a intolerância religiosa, destacando que os escravizados possuíam história e cultura próprias que precisam ser valorizadas, pois todas essas histórias contribuem para a construção da identidade do Brasil.
Convencida do potencial de cada estudante, Aline acredita que o humor e as brincadeiras tornam o aprendizado da Língua Portuguesa mais leve e acessível. Em suas aulas, aproveita também para promover conversas sobre cidadania, ampliando a formação dos alunos para além dos conteúdos curriculares.
A pandemia dificultou o processo de alfabetização, e, mesmo nas turmas mais avançadas do ensino fundamental, a professora ainda encontra crianças que não sabem o nome das letras. Para superar essa dificuldade, ela trabalha o reconhecimento das letras com a turma, incentivando cada aluno a desenvolver a habilidade de ler e decodificar palavras.
Atualmente, ela leciona para turmas do 6º e 8º anos do ensino fundamental no GET Armando Klabin e para todas as séries do ensino médio no CE Doutor Albert Sabin, onde ainda exerce os cargos de diretora adjunta e pedagógica. “Eu me realizo em sala de aula. É lá que encontro meu lugar”, resume.

Nas aulas, promove ainda debates sobre inteligência artificial e ética, refletindo preocupações das novas gerações com o impacto das tecnologias. Segundo ela, tais transformações podem comprometer a atuação docente e até gerar a sensação de que a profissão se torne escassa. “É o ser humano que traz a base necessária para compreender os assuntos”, ressalta.
Outro ponto de atenção é a desvalorização da carreira do professor. Aline recorda o período em que, grávida, precisou lecionar em cinco escolas particulares simultaneamente para garantir uma renda estável. “Não é apenas a questão salarial; muitos estudantes da rede pública enfrentam cedo a desigualdade social e percebem que atividades informais, como vender bala no trem, rendem mais do que permanecer na sala de aula”, relata.
Educação é para todos
Defensora da educação inclusiva, Aline também atua em turmas com alunos surdos na rede estadual e com quatro estudantes com transtorno do espectro autista na rede municipal. Nessas situações, conta com o apoio de mediadores escolares, que desempenham papel fundamental no processo de aprendizagem. Além da experiência profissional, ela também é mãe de uma pessoa autista, o que torna sua atuação ainda mais próxima da realidade das famílias.
As aulas são adaptadas às necessidades individuais. “O que posso construir para esse aluno? E se fosse meu filho sem esse apoio, como seria?”, questiona, destacando que cada autista aprende de forma única e precisa de oportunidades personalizadas. Na rede municipal, esse processo é garantido pelo Plano de Ensino Individualizado (PEI), elaborado para alunos com laudo médico e revisado a cada bimestre, assegurando uma trajetória escolar mais justa e adequada.

