Em menos de 48 horas, a Creche Comunitária Nino, que há quase 40 anos atende crianças e famílias da Vila Kennedy, foi alvo de ações que deixaram um rastro de destruição e prejuízos. O episódio, ocorrido no último fim de semana, expõe a vulnerabilidade de um dos mais tradicionais projetos sociais da Zona Oeste do Rio.
Entre o sábado (31/10 ) e a madrugada de segunda-feira (02/11), arrombaram sucessivamente as dependências da instituição incluindo a sala do Maternal e o Berçário. Além de pixações e depredação no imóvel, os invasores limparam o local: levaram desde equipamentos de maior valor, como televisão, micro-ondas e liquidificador industrial, até itens básicos de sobrevivência diária, como fraldas, pomadas, panelas e talheres usados nas refeições dos alunos.
A ação criminosa chamou atenção: mesmo após a equipe reforçar portas e trincas logo após o primeiro ataque no sábado, os suspeitos voltaram na noite seguinte para terminar o saque. Até os materiais que haviam sido comprados com esforço para a festa de formatura das crianças foram levados.
Muito além de um teto: nutrição, inclusão e empregos
Nascida nos anos 1970 a partir da luta de moradores da comunidade, a Creche Nino é uma instituição parceira da Prefeitura do Rio que atende 100 crianças de baixa renda em horário integral e de forma totalmente gratuita.
Para além do cuidado pedagógico, o espaço funciona como uma salvaguarda para famílias em situação de vulnerabilidade social: oferece quatro refeições diárias com orientação nutricional, suporte psicológico e atenção especializada para quase uma dezena de crianças laudadas ou sob investigação diagnóstica. A estrutura ainda gera renda direta no território, empregando 24 colaboradores.
O educador, gestor público e articulador local da Vila Kennedy, Jorge Melo, ressalta que a instituição é movida por um histórico de superação e que a resposta ao crime vem sendo a solidariedade. “A Creche Comunitária Nino é uma creche de luta comunitária, de muita gente que vem antes da gente, de resistência. A gente tem o momento em que descobre a violência, mas também a comoção e a solidariedade das pessoas. Seguimos em frente e hoje o atendimento funcionou normalmente”, afirmou Jorge Melo.
O impacto real: 100 famílias sem apoio
Muito além do dano material, o crime atinge o coração da economia local. A Creche Nino garante abrigo, cuidados e refeições em tempo integral para 100 crianças de 2 a 3 anos, permitindo que mães e pais da comunidade possam trabalhar.
Embora possua convênio com a Prefeitura do Rio, a verba repassada é insuficiente para custear a operação completa, fazendo com que a unidade dependa de doações constantes. Com a cozinha desestruturada e sem os insumos básicos de higiene, o atendimento teve de ser suspenso. “A luta para manter essa porta aberta já é diária. Ver o espaço de 100 crianças devastado dessa forma é revoltante. Levaram o que tínhamos para cuidar e alimentar nossos bebês”, desabafou a gestora da unidade, Joice Aparecida Moriggi.
Investigação e Mobilização
O caso foi formalizado na 34ª DP (Bangu), que tenta identificar os autores dos arrombamentos. Enquanto as investigações policiais avançam, a urgência agora é reconstruir o espaço para que as crianças não fiquem sem assistência.
Corrente de solidariedade: como ajudarA creche abriu uma campanha emergencial para repor o acervo furtado. Toda ajuda é bem-vinda para permitir a reabertura do espaço.
- O que doar: Fraldas (tamanhos M e G), pomadas, itens de cesta básica, utensílios de cozinha (panelas grandes, talheres) e eletrodomésticos.
- Como doar:

