Reportagem: Juliana Henrik
Antes mesmo de aprender a costurar, Paola Francisca já carregava uma herança que atravessou gerações. Neta de Madalena, uma costureira que criou 12 filhos usando linhas, tecidos e muito amor, ela cresceu observando como a costura era capaz de sustentar uma família e transformar dificuldades em dignidade.
Foi dessa história que nasceu um sonho.
Aos 15 anos, quando decidiu aprender a profissão, Paola ouviu diversas vezes que costura era “coisa de velho”. Enquanto muitos jovens se afastavam da atividade, ela fez justamente o contrário: transformou o preconceito em motivação.
“Se costurar era coisa de velho, eu seria uma jovem apaixonada pela profissão”, pensou.
Anos depois, aquela adolescente curiosa se tornou professora, empreendedora e idealizadora do Costurando Histórias, projeto que hoje vem transformando vidas dentro do Complexo do Alemão por meio da costura criativa, do upcycling, da geração de renda e do fortalecimento da autoestima.
Cada ponto feito na máquina representa muito mais do que uma peça de roupa. Representa um novo começo.


Um projeto que nasceu para mudar histórias
Com apoio da FAPERJ e desenvolvido pelo Programa PISTA, o Costurando Histórias, projeto que integra o Território PISTA Complexo do Alemão, surgiu por meio de um edital da instituição, com apoio da ONU e do PNUD, para responder a uma realidade presente em muitas comunidades: a dificuldade de acesso à qualificação profissional e às oportunidades de geração de renda.
As aulas são realizadas na FAETEC Alemão, espaço que se tornou um ponto de encontro para aprendizado, troca de experiências e fortalecimento da comunidade. Mas o projeto foi além da capacitação. Ele criou um espaço de acolhimento, convivência e pertencimento, onde pessoas de diferentes idades descobriram uma nova profissão, um hobby ou até mesmo uma forma de cuidar da própria saúde emocional.
No dia 27 de junho, o projeto celebrou um dos momentos mais marcantes da sua trajetória: a formatura da primeira turma, com 34 alunos.

Foi a primeira iniciativa do Programa PISTA a realizar uma formatura, consolidando um impacto que vai muito além das salas de aula.
Para Paola Francisca, ver o projeto sair do papel e transformar vidas é a maior recompensa. “É extremamente gratificante ver que nossas alunas confiaram no nosso trabalho. Contamos com o suporte fundamental da equipe do PISTA, que também acredita no nosso propósito. Ver o projeto sair do papel e se tornar realidade, desde a organização dos materiais até a estruturação do espaço, é uma conquista muito significativa. É um orgulho ver que minha equipe é composta por mulheres que também começaram como alunas e hoje se tornaram multiplicadoras do nosso conhecimento. Nosso sonho é continuar expandindo o projeto pelo Complexo do Alemão, para que mais mulheres alcancem a independência financeira, contribuam com o sustento de suas famílias e realizem seus objetivos pessoais. Desejamos que o Costurando Histórias cresça cada vez mais, pois este é apenas o começo da nossa trajetória.”
As inscrições para a próxima turma, que começa em agosto, já demonstram o alcance dessa transformação. Em poucos dias, 57 pessoas já garantiram uma vaga para viver essa experiência.
Costura que acolhe
Dentro da sala de aula, a idade nunca foi um obstáculo. A turma reuniu alunos entre 18 e 76 anos, mostrando que sempre existe tempo para aprender algo novo.
Entre as participantes estão mulheres em tratamento contra o câncer, pessoas com deficiência física e alunos com deficiência auditiva. Histórias diferentes que encontraram na costura muito mais do que uma atividade profissional. Encontraram acolhimento.
Para algumas, a costura representa uma nova oportunidade de gerar renda. Para outras, tornou-se um processo terapêutico, capaz de devolver autoestima, autonomia e o sentimento de voltar a ser útil para si mesmas e para suas famílias.
Sandra, de 62 anos, faz parte da primeira turma e resume o sentimento de quem encontrou na costura uma nova paixão. “Estou maravilhosamente feliz em participar desse curso. Eu nunca tinha pegado em uma máquina de costura. Foi tudo muito novo e especial para mim. A professora tem um cuidado e um carinho conosco que me fizeram apaixonar pela costura.”

Ao longo dos encontros, linhas e tecidos passaram a costurar também amizades, confiança e sonhos que pareciam esquecidos.
Mais do que ensinar uma profissão, o Costurando Histórias passou a reconstruir vidas.
