Aos 92 anos, Anazir Maria de Oliveira carrega no corpo e na memória uma história marcada por liderança, cuidado e transformação coletiva. Conhecida como Dona Zica, ela é daquelas figuras que cativam pela firmeza e pela constância. Mesmo na velhice, segue ativa, mostrando que a força de quem luta pela favela não se mede pela idade. Sua autoridade nasce do cuidado cotidiano, da escuta atenta e da capacidade de influenciar quem está ao redor. Na Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio, onde mora há mais de 58 anos, seu nome se confunde com a própria história da comunidade.
Natural de Minas Gerais, Dona Zica chegou ao Rio de Janeiro ainda jovem. Viveu em São Cristóvão, foi removida para a Penha e, depois, para Vila Aliança, durante o governo Carlos Lacerda, período marcado por remoções forçadas que desestruturaram famílias negras e pobres em diversas favelas da cidade. Essas vivências moldaram seu olhar crítico sobre o Estado e fortaleceram seu senso de pertencimento e resistência. “A coisa não começou aqui e não termina aqui”, costuma dizer, ao lembrar que sua trajetória faz parte de uma luta histórica maior.
Desde cedo, o trabalho foi uma necessidade. Dona Zica começou a trabalhar como empregada doméstica aos 9 anos, atividade que exerceu até os 70. Mesmo diante das adversidades e do racismo estrutural, nunca deixou de estudar. Foi a primeira pessoa da família a entrar em um grupo escolar. Trabalhava, cuidava de duas crianças e estudava sempre que podia. Ainda jovem, enfrentou a exclusão racial no sistema educacional. “Terminei o quarto ano. Na época, só tinham duas escolas: uma para meninos e outra para meninas. Na escola de meninas, negras não entravam”, relembra. Já adulta e mãe, retomou os estudos. “Minhas filhas eram adolescentes. Voltei a estudar, terminei o segundo grau e tentei vestibular. Em 1983, passei em pedagogia.” Hoje, Dona Zica é pós-graduada e reafirma: “A educação é o poder transformador da minha vida”.
Na Vila Aliança, construiu uma liderança integrada. Nos anos 1960, inaugurou a primeira e única igreja católica da comunidade. Para ela, levar a religiosidade ao território era também criar um espaço de encontro, organização e proteção. A partir dali, coordenou a Pastoral do Menor e a Pastoral Afro-Brasileira, unindo fé e ação social. Criou grupos de mães e de empregadas domésticas para lutar por direitos trabalhistas, antecipando debates que só décadas depois ganharam visibilidade nacional. “Estive com Benedita por anos. Foram várias idas a Brasília. Ela foi companheira de muitas lutas”, recorda.
Matriarca de uma família extensa, seis filhos, 20 netos, 34 bisnetos e nove tataranetos, Dona Zica não separa vida pessoal de militância. A família é parte da missão. Uma das filhas, a quem chama de “braço direito”, atua ao seu lado, garantindo que o compromisso com a comunidade atravesse gerações. “Eu faço um pouco de cada coisa”, resume, com simplicidade, um trabalho que envolve articulação política, formação, acolhimento e denúncia. Recentemente, participou do documentário Nzila: Favela, Ancestralidade e Saúde Antirracista, produzido a partir de um programa da Fiocruz que formou promotores populares antirracistas em sete territórios de favela, entre eles Vila Aliança.
Com lucidez, Dona Zica ensina a comunidade a identificar o racismo estrutural em suas formas mais sutis. Observa quem ocupa cargos de chefia, quem limpa os espaços, quem tem acesso às oportunidades. “Algumas pessoas dizem: ‘você só fala de negro’. Mas a gente fala de uma realidade que muitos não observam. Quando você entra no banco, quem está no caixa? Quem está limpando o chão? São perguntas que precisam ser feitas”, afirma.
Ao falar do futuro, Dona Zica insiste na educação como caminho. “Precisamos influenciar nossos jovens desde pequenos a estudar, ler e escrever. Esse é o primeiro passo. É isso que nos ajuda a descobrir quem somos e por que somos.” Sua vida é prova viva de que conhecimento, memória e organização seguem sendo as ferramentas mais potentes de transformação.
Sorridente, guerreira, exemplo. A vida de Dona Zica é, acima de tudo, uma aula prática de resistência. Diante de toda a sua trajetória, ela deixa um legado, repleto de aprendizados, respeito e educação: “A discriminação é sutil”. Educar, para ela, é ajudar o povo a descobrir quem é, de onde vem e por que luta. Em cada gesto, Dona Zica reafirma que transformar o mundo começa, quase sempre, pelo cuidado silencioso de quem nunca deixou a comunidade sozinha.


