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Coletivo Especiais da Maré fortalece o acesso a direitos de mais de 800 famílias atípicas do Complexo

Projeto promove inclusão e acolhimento com ações informativas e de suporte para a rotina de crianças e adultos com deficiência

Mesquita, Antônia Souza e Alusca Cavalcante, fundadora do coletivo. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Criado no Complexo da Maré há oito anos, o coletivo Especiais da Maré já se tornou referência ao promover acolhimento, orientação sobre direitos básicos e facilitação do acesso a redes de apoio para mais de 800 famílias de crianças e adultos com deficiência nas 16 comunidades que integram a região.

Fundado por Alusca Cavalcante, mãe de Pedro Henrique, um adolescente de 17 anos com paralisia cerebral, o coletivo nasceu a partir da busca por atendimento escolar em casa para o filho, que resultou no contato com outras mães atípicas que também vivenciavam os mesmos desafios diários no território.

“Foi do atendimento domiciliar que eu conheci o professor Luiz, que ainda é muito presente na história dos Especiais da Maré. E ele via toda aquela dinâmica que eu fazia com o Pedro. Fazia dessa casa um campo de diversão. E o professor falava: ‘olha, preciso que você converse com a mãe de um aluno meu, porque eu vejo que ela tem muito o que aprender. Você pode ensinar tal coisa?’ E aí sim, começou o meu contato com as famílias atípicas moradoras aqui do Complexo da Maré”, relata.

Além da falta de acessibilidade nas ruas e nos transportes, ausência de serviços especializados de saúde e reabilitação no território, a realidade das famílias atípicas também é impactada pelo preconceito e isolamento social, conforme explica Juliana Mesquita, coordenadora do projeto e mãe de Pietra, uma criança de 12 anos com paralisia cerebral e primeira aluna com deficiência da Orquestra Maré do Amanhã.”

Antigamente, a gente não conseguia ver pessoas com deficiência transitando aqui dentro do Complexo da Maré. No início, elas faziam cadastro na casa da pessoa com deficiência e elas saíram de lá arrasada. Porque a pessoa estava lá no chão, amordaçada e sem nenhum recurso humano mesmo. E eu acho que o coletivo, ele trouxe troca de informação dessas famílias dentro do grupo de WhatsApp.  E lá elas têm todo o suporte sobre LOA, sobre cartão de passagem, sobre defensoria, explica.

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Roda de acolhimento na sede do projeto. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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O cuidado e o afeto com as crianças é um grande diferencial. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

A busca por acessibilidade

Além de Alusca e Juliana, a gestão do coletivo conta hoje com Valéria Viana, Lorrayne Gomes e Antônia Souza. Mulher com deficiência, Antônia passou de fazer parte da liderança e vê no movimento como uma rede. “Na parte da gestão, é muita responsabilidade. E eu tento dar conta dentro das possibilidades, óbvio. Muitas vezes eu não consigo participar de encontros, de eventos, porque a minha principal fonte de apoio é meu irmão. Muitas vezes elas me ajudam, quando o meu irmão não pode. Ou alguém que venha através delas, e que elas confiam aí, eu consigo sair de casa para esses compromissos. Então, é um prazer participar desse coletivo e com essas mulheres que são tão potentes”, afirma.

Antônia Souza, membro da liderança do coletivo. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Para enfrentar a falta de acessibilidade, o coletivo integrou o desenvolvimento do Programa Bira Carvalho, uma plataforma desenvolvida pelo Observatório de Favelas, que traz um mapeamento participativo com mais de 130 pontos acessíveis e inacessíveis em todo o Complexo da Maré.

“A minha dificuldade maior é transitar na comunidade porque nós não temos calçada, nós não temos nem a rua para andar, então fica difícil. Mas a gente está em todo lugar mostrando que a gente está aqui, a gente precisa desse espaço. E muitas vezes as pessoas ficam olhando. Então as pessoas têm que saber que aqui também é o nosso lugar e eles têm que respeitar”, afirma Thelma, mãe de Ian Carlos, de 27 anos, que adquiriu deficiência após ser atingido por um tiro na comunidade há 15 anos.

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Thelma, mãe de Ian Carlos, de 27 anos, relata os desafios de acessibilidade.
Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Grupo de mães atípicas atendidas pelo coletivo. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Rede de apoio da prática

O coletivo ainda organiza rodas de conversa para suporte às mães e o “guarda-roupa solidário”, instalado no espaço cedido na Vila Olímpica do Seu Amaro para a distribuição de roupas e equipamentos. A rede também realiza bazares, doações de fraldas, medicamentos e cestas básicas.

A rede de apoio também tem viabiliza aulas de capoeira em parceria com a ONG Luta Pela Paz, oficinas de teatro no Museu da Maré, e vagas na Orquestra Maré do Amanhã, além de descontos em centros de reabilitação.

“Eu cheguei muito nova e não sabia de nada. Não tinha noção do que era um cartão de passagem, do que era um benefício, de como conseguir uma terapia para o meu filho. E através do grupo eu consegui tudo o que o meu filho tem hoje. Se não fosse esse grupo, eu realmente não sei o que seria da gente”, relata Bruna, mãe de Bryan, de 6 anos, que é autista.

Adilson, pai do Giovanni, de 12 anos, criança que vive com paralisia cerebral e hidrocefalia, relata os desafios da paternidade atípica e o impacto das barreiras sociais no cotidiano.

“Ser um pai atípico hoje é ser atípico do atípico, porque têm os pais que fogem, somem, desaparecem. Então, eu abracei essa causa. O amor me moveu. E eu, como homem, olhando de fora, além disso tudo, ainda tem o preconceito as mães, por serem mulheres. Então, hoje em dia, tem coisas que eu preciso muito, elas me ajudam, elas me acolhem. E eu entendo o que eu preciso fazer, como homem, como pai, para dar exemplo, para outros pais”, comenta.

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Adilson, pai de Giovanni, de 12 anos, incentiva a atuação paterna. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Bruna, mãe de Bryan, criança de 6 anos com autismo atendida pelo coletivo. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Apesar dos avanços, atualmente, a principal reivindicação do coletivo e das famílias da Maré é a criação de um centro de reabilitação no próprio território, evitando que moradores precisem se deslocar por longas distâncias em busca de atendimentos de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional pelo SUS.

Para conhecer mais o trabalho, acompanhar as ações do coletivo ou contribuir com doações, entre em contato através dos canais oficiais: 

Instagram: @especiaisdamare | WhatsApp: (21) 97222-8603