O cinema produzido pelas periferias brasileiras volta ao centro da cena com a realização do 19º Festival Visões Periféricas, que começa no dia 23 de julho reunindo 69 produções audiovisuais de diferentes regiões do país. Com programação gratuita presencial e online, o evento destaca histórias construídas por realizadores independentes e grupos historicamente invisibilizados pelo mercado tradicional.
Reconhecido como um dos principais festivais voltados ao audiovisual periférico no Brasil, o Visões Periféricas chega a uma edição especial que celebra 20 anos de trajetória. Ao longo desse período, o festival acompanhou o crescimento de uma produção cinematográfica que rompe barreiras, amplia representatividades e apresenta novos olhares sobre territórios, culturas e experiências brasileiras.

Nesta edição, foram recebidas 856 inscrições, número 70% maior que no ano anterior. Os filmes selecionados representam 18 estados brasileiros e abordam temas como memória, identidade, questões raciais, gênero, culturas tradicionais, meio ambiente, trabalho e as vivências nas cidades.
Para o idealizador e coordenador geral do festival, Márcio Blanco, a produção periférica conquistou um espaço que antes era negado. “Quando o festival surgiu, poucas pessoas olhavam para essa produção da periferia. Duas décadas depois, ela ocupa um espaço cada vez mais relevante, ajudando a romper estigmas, revelando a diversidade de olhares sobre questões nacionais e regionais e apresentando novos arranjos estéticos e criativos no audiovisual brasileiro”, afirma.
Da denúncia à diversidade de narrativas
Segundo o curador Wilq Vicente, o audiovisual periférico passou por transformações importantes ao longo dos anos. Se antes muitas obras estavam concentradas em narrativas de denúncia sobre violência, racismo e desigualdade, hoje os filmes apresentam uma variedade maior de histórias e linguagens. “As questões raciais e sociais continuam presentes, mas são apresentadas de forma mais elaborada, atravessando histórias sobre trabalho, afetos, relações familiares e amor”, destaca.
Para o curador, o crescimento de políticas públicas de incentivo cultural também contribuiu para ampliar a participação de realizadores de diferentes territórios. “Pela primeira vez chegaram ao festival filmes de cidades e estados que nunca haviam participado, e muitos com apoio da Lei Paulo Gustavo e da Lei Aldir Blanc”, explica.
Favelas e periferias como produtoras de memória
Mais do que ocupar espaços de exibição, o audiovisual produzido nas periferias tem cumprido um papel fundamental na construção da memória coletiva. Por meio das câmeras, moradores passam a registrar suas próprias histórias, culturas e desafios, deixando de serem apenas personagens retratados por outros.
Essa mudança representa uma disputa pelo direito de narrar. Jovens, coletivos culturais e produtores independentes transformam seus territórios em cenários de criação, mostrando que as periferias não são apenas espaços marcados por dificuldades, mas também lugares de criatividade, inovação e produção artística.
Homenagem ao Vídeo nas Aldeias
A edição de 2026 presta homenagem ao projeto Vídeo nas Aldeias, referência na formação audiovisual indígena e na valorização das narrativas produzidas pelos próprios povos originários. A programação inclui a exibição do filme “Arquivo Vivo”, de Vincent Carelli e Ana Carvalho.
O festival também conta com sete mostras, sendo quatro competitivas: Fronteiras Imaginárias, Cinema da Gema, Panorâmica e Visorama, além das mostras não competitivas ICPLAY, Informativa e Visões do Amanhã.
Parte da programação estará disponível online entre os dias 23 de julho e 6 de agosto, incluindo uma seleção especial na plataforma Itaú Cultural Play e a mostra Visorama no site oficial do festival.
Formação e futuro do cinema periférico
Além das exibições, o festival realiza o Visões Lab, laboratório gratuito voltado ao desenvolvimento de projetos audiovisuais, formação e aproximação de novos realizadores com o mercado cinematográfico.
A programação completa pode ser acessada em:
www.visoesperifericas.com.br
