A chuva caiu forte na Cidade do Rock no primeiro fim de semana de festival, mas para quem carrega o “estilo de cria” no sangue, o clima foi mero detalhe. Pela Cidade do Rock e principalmente pelo Palco Favela, o que se viu foi uma aula de moda autêntica, onde capas de chuva se transformaram em vitrines transparentes para ostentar tranças trabalhadas, muito gloss, acessórios, maquiagens marcantes e marcas autorais nascidas nas favelas do Rio e de São Paulo.
Com o conforto como premissa e a ancestralidade como guia, moradores da Vila Kennedy, Cantagalo, São Gonçalo, Barra da Tijuca e até da periferia paulista mostraram que a verdadeira vanguarda da moda urbana vem da periferia.

Aos 18 anos, Lisandra Duarte, moradora da Vila Kennedy, em Bangu, não deixou o tempo fechado estragar sua produção. Ela mesma fez a própria maquiagem e cabelo, garantindo um visual único para curtir o show da cantora Budah. “É que tem que sustentar, né? Eu falei: ou eu vou do jeito que eu quero, ou eu vou pra chuva. E eu vou do jeito que eu quero! Acho que não tem igual. O diferencial sou eu, meu cabelo, minha make, eu. Bem produzida, e fui eu que fiz”!
Representando São Gonçalo, Rebeca Lopes, de 28 anos, chegou ao evento no domingo pronta para viver a experiência completa, sem medo da água. Seu visual apostou no equilíbrio entre praticidade e a estética marcante da periferia. “Vim pronta pra viver tudo, com certeza. O foco foi o conforto, mas o look é de cria sim, com certeza, sempre. É muita bijuteria, trança, pingente e muito gloss”, destacou Rebeca.
A nostalgia dos anos 2000 e a cena do R&B e Hip-Hop ditaram o tom dos looks de Kelly Oliveira e Larissa Martins, que foram juntas aproveitar a programação do festival.

Kelly Oliveira, de 28 anos, moradora da Tijuquinha, comunidade na Barra da Tijuca, veio acompanhada da namorada e buscou inspiração direta nos ícones da música internacional. “Minha inspiração foi o show do Ne-Yo e do Nelly, vim total anos 2000. Já estava psicologicamente preparada para o tempo. Não tem chuva certa não, filha! Pode chover o que for, tô nem aí”, brincou Kelly.

Ao seu lado, Larissa Martins, de 27 anos, vinda do Morro do Cantagalo, em Copacabana, customizou o próprio visual com detalhes únicos para garantir exclusividade no gramado. “Meu look é inspirado nos anos 2000 porque vim ver o Nelly e o Ne-Yo. Fiz até a calça que tem meu nome! Já vim com a cabeça preparada para a chuva, mas como eu fiz meu próprio look, tô muito feliz”, pontuou Larissa.
O estilo periférico não conhece fronteiras e cruzou a ponte aérea Rio-São Paulo. Vindo de Perus, na Zona Noroeste paulistana, Guilherme Quin, de 33 anos, fez do festival uma vitrine de moda para divulgar a marca da amiga. Ele ostentou um look completo: calça, camiseta e pochete, assinado por uma estilista periferica.

“É uma marca de uma amiga minha lá da periferia de Perus. Ela me vestiu e falou: ‘Mano, você vai pro Rock in Rio, vai lá, seja lindo, seja louco!’. Calça, camiseta, pochete… tudo da coleção própria dela. A periferia tem que representar sempre! Vim pra ver o show do Ne-Yo, mas o Rael também representa demais, então vamos nessa”, contou Guilherme.
No final do dia, nem o temporal foi capaz de derrubar a produção de quem foi à Cidade do Rock para ostentar suas raízes. Entre um show e outro, o que ficou marcado no Palco Favela e por todos os cantos do evento foi a força de uma geração que se produz com amor, personalidade e muita atitude. A chuva passa, o festival acaba, mas o estilo de cria continua ditando o tom de onde quer que passe.













