O dia 6 de maio de 2021 amanheceu sob o som de helicópteros e rajadas de fuzil na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio. O que a Polícia Civil batizou de Operação Exceptis com a justificativa de combater o aliciamento de menores pelo tráfico, tornou-se a segunda operação mais letal da história do estado.
A ação durou nove horas. Durante o período, o Jacarezinho foi transformado em um cenário de guerra que paralisou trens, metrôs, escolas e confinou milhares de moradores em suas casas. Relatos de execuções sumárias, invasões de domicílio e o desfazimento de cenas de crime, sob o pretexto de “socorro” às vítimas, marcaram as denúncias feitas por entidades de Direitos Humanos e moradores na ocasião.
A atuação policial foi duramente questionada por órgãos internacionais, incluindo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que apontaram na época evidências de execuções, tortura e invasões ilegais, denunciando ainda a manipulação de provas e a violação de perícias no território.
O massacre no Jacarezinho estabeleceu o marco de uma política de segurança pública pautada pela letalidade, característica que se tornou indissociável da gestão Cláudio Castro. A repetição de episódios como o da Vila Cruzeiro, em maio de 2022 que completa quatro anos de estagnação jurídica demonstra a recorrência de um padrão operacional violento. O rastro de sangue, reafirmado em agosto de 2022 e no recente episódio de outubro de 2025, sinaliza que a morte não é um desdobramento imprevisto, mas um componente característico à estratégia de segurança vigente. Ao ignorar as diretrizes de controle externo e os apelos das famílias das vítimas, o Estado não apenas perpetua a impunidade, mas consolida uma estrutura de exceção nos territórios periféricos do Rio de Janeiro.

Impunidade
Dos 13 inquéritos abertos para investigar as mortes, 12 foram arquivados. O sistema criminal, na maioria das vezes, aceitou a tese de legítima defesa. Apenas o caso de Omar Pereira da Silva, morto dentro de uma casa, segue com policiais réus por homicídio e fraude processual (por plantar uma arma para forjar um confronto). Para as outras famílias, restou apenas o eco de processos arquivados.
Atualmente, segundo informações, ao menos 16 famílias buscam o reconhecimento judicial de que seus parentes foram executados durante a incursão no Jacarezinho. Representados pelos advogados Maria Isabel Tancredo e João Tancredo, os familiares aguardam o desfecho de ações indenizatórias que tramitam nas varas de Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ). De acordo com a defesa, cinco anos após o massacre, o Estado ainda não efetuou o pagamento de nenhuma reparação financeira às vítimas.
Dados que revelam
Segundo a Rede de Observatórios da Segurança (do CESeC) e Instituto Fogo Cruzado, os números confirmam a consolidação de uma política de segurança pautada pelo confronto. Desde a Chacina no Jacarezinho, em maio de 2021, até o primeiro semestre de 2026, o Rio de Janeiro registrou uma média que ultrapassa a marca de 1.100 mortes por intervenção de agentes do Estado anualmente. O cenário pós-2022 marcado pelas chacinas da Vila Cruzeiro e do Complexo da Penha revelou um repique na letalidade que se manteve persistente até os episódios mais recentes de 2025 e 2026.
Além do rastro de letalidade, a gestão do governo Claudio Castro buscou na implementação do programa Cidade Integrada uma resposta institucional à crise de segurança no Jacarezinho. Cinco anos após a tragédia, a integração prometida não se materializou. A ausência de interlocução com as lideranças territoriais, aliada à ineficácia das políticas públicas transversais, evidencia que o programa faliu em seu propósito fundamental.
Em uma publicação marcando a memória do massacre, a deputada estadual Renata Souza (PSOL) trouxe luz a números que revelam a lógica do confronto nas periferias. Baseada em estudos do GENI-UFF, ela destacou que o estado realizou mais de 22 mil incursões policiais em 15 anos, mas o índice de eficiência é pequeno, alcançando meros 1,5% do total.
Ao confrontar os dados com a realidade do Jacarezinho onde a maioria das investigações sobre as 28 mortes acabou em gavetas de arquivos, Renata questionou o custo humano dessa estratégia. “Até quando as vidas nas favelas e periferias serão ceifadas por uma política de segurança pública que exclui, assassina e violenta os moradores?“, ressaltou.
