A Canto Cego é daquelas bandas que não dá para ignorar. Com 15 anos de estrada, o grupo carioca de rock alternativo formado por Roberta Dittz (vocais), Rodrigo Solidade (guitarra), Magrão (baixo) e Ruth Rosa (bateria) nasceu no coração do Complexo da Maré e carrega na voz e nos instrumentos a vivência, a luta e a poesia das ruas. E, em setembro, eles sobem ao palco do Rock in Rio, um dos maiores festivais do mundo, para mostrar que o rock também é favela, é cria e é resistência.
“A gente veio dessa coletividade de vivência de outras bandas e do espaço da periferia”, conta um dos integrantes. Foi na Maré que os ensaios começaram, foi lá que o som foi sendo moldado. E o nome da banda também tem conexão direta com o território, com as coisas que eles estavam vivendo. “Isso é quase que o natural nosso”, dizem.
A cena rock da Maré
Antes da Canto Cego existir como é hoje, já tinha rock rolando solto na favela. Os integrantes contam que, perto do Pinheiro e da Vila do João, a cena era forte. “Tinha muita banda na época”, lembra um dos músicos. E não era só rock: tinha trap, forró, de tudo um pouco. “Ali já tem uma cena de rock, não só de rock, mas de trap, de forró, de tudo”, explica.
E o mais bonito é que a galera da Maré não esperava ter espaço para tocar. Eles mesmos criavam. Pegavam equipamento, montavam som na praça, faziam acontecer. “A gente pegou de dentro dos coletivos de dentro da Maré e mostrou pra galera mais ou menos como é que se poderia fazer”, contam.
Nos primeiros anos, a banda nem precisava sair da Maré para fazer show. “Sempre tinha coisa rolando, coisas alternativas na rua”, recordam. O último show antes da pandemia, em março de 2020, foi lá mesmo, na Maré. “É um lugar que é a nossa base”, afirmam.
Rock é resistência

Muita gente ainda acha que rock é coisa de asfalto, de gente com grana. Mas a Canto Cego veio para quebrar essa ideia. “A gente vê que cada vez mais existem bandas que são de lugares periféricos”, dizem. O rock, de fato, exige equipamentos caros, como guitarras, amplificadores e bateria. “Isso dá uma limitada no acesso”, reconhecem. Mas, mesmo assim, tem muita gente fazendo som com o que tem e criando coisas maravilhosas. “O recorte da mídia nunca vai botar isso em muita evidência”, lamentam.
O maior desafio: continuar
Quando perguntados sobre qual foi o maior desafio em 15 anos de banda, a resposta veio direta: “O maior desafio eu acho que é continuar”. E continuar não é fácil. A vida de artista independente é uma luta diária. “Você ser artista depende de uma condição financeira, de uma estabilidade”, explicam. Muitas vezes, o trabalho fora da música é o que sustenta o trabalho na música. “Vender o almoço pra comprar a janta”, resumem.
A banda não tem espaço fixo de ensaio. Já tiveram, já alugaram um lugar na Maré, mas hoje ensaiam uma vez por semana, com muito esforço. “Todo mundo fica mais velho, cada um tem mais obrigações, mais coisas pra manter a vida, porque a banda não sustenta as nossas vidas”, desabafam. Mesmo assim, eles seguem. “A banda precisa existir antes de tudo”, afirmam.
No Rock in Rio, novidades e mensagem forte

A Canto Cego já pisou no Rock in Rio em 2019 e fez questão de levar a bandeira da Marielle, esticada durante a música “Zé do Caroço”, com coreografia e tudo. Este ano, a expectativa é ainda maior.
Eles prometem uma participação inusitada, com surpresas que ninguém está esperando. “A gente sempre gosta de reverenciar e trazer referências e protestos, manifestos, coisas do que a gente vive e do que a gente acha importante ser falado num palco como esse”, adiantam.
O show no Palco Favela vai ter um gosto ainda mais especial. “Lá tem muita coisa acontecendo, então dá para utilizar vários espaços. Dá para você subir numa casa, dá para você sair de dentro de uma casa”, contam.
E tem mais: a banda está lançando um álbum novo, chamado “Odiar o Fim”. Ele será lançado em partes: a primeira foi em julho, a segunda em outubro ou novembro, e o completo só no ano que vem. “Coisas de banda independente”, brincam. O disco fala sobre fim dos tempos, caos e esperança. “É uma sensação de caos e medo e desespero com relação ao mundo, mas ao mesmo tempo uma reflexão de esperança”, descrevem.
A mensagem que fica
Qual o principal recado que a Canto Cego quer deixar para quem for vê-los no Rock in Rio? “O principal recado é essa desobediência mesmo. É olhar as regras e desobedecer de propósito e questionar de propósito”, afirmam. E completam: “A gente não pode se curvar, a gente não pode se sujeitar ao que estão nos impondo”.
É sobre juntar as pessoas que a gente ama, ganhar força, respirar. “Não sei se isso vai mudar o mundo, não sei se isso vai transformar muita coisa, mas pelo menos eu vou estar lutando até o fim”, dizem.
O nome do novo álbum, “Odiar o Fim”, traz justamente essa ideia: tirar do ódio, um sentimento que a gente evita, mas que o rock sabe bem como canalizar, a força para fazer alguma coisa, para não só aceitar, mas para mover.
Arte que inspira

Ser referência para os jovens da favela é uma responsabilidade que a banda carrega com cuidado. “É difícil você chegar pra um jovem e falar assim: não, eu acredito no seu sonho, vai viver de arte”, reconhecem. Porque viver de arte é duro, e eles sabem disso na pele.
Mas, ao mesmo tempo, sabem que a arte transforma. “A arte realmente é transformadora na vida de qualquer pessoa, independente se ela vai viver ou não de arte”, afirmam. E ver um moleque que cresceu ouvindo a banda e hoje está no palco tocando, como aconteceu recentemente no Circo Voador, é a prova de que a influência existe e é real.
“Ver uma banda que começou há 15 anos, tá tocando no Rock in Rio. Um moleque que tá com 15 anos hoje fala: pô, vou formar uma banda, isso é maneiro”, celebram.
E depois do Rock in Rio? A ideia é circular mais pelo Brasil, levar o som da Maré para outros estados. “A perspectiva é que a gente consiga circular mais pelo Brasil e continuar esses lançamentos”, planejam.
A Canto Cego é prova viva de que o rock não tem endereço fixo. Ele nasce onde tem gente com história para contar, e a Maré, com sua potência cultural, tem muitas. No Rock in Rio, eles vão contar mais um capítulo dessa história. E promete ser inesquecível.
Edição e revisão: Jonas di Andrade
