Dá pra começar esse texto dizendo que “todo mundo conhece o Rene Silva”. E é verdade. Mas, além dele, muitas outras pessoas fizeram parte dos 20 anos de história do Voz das Comunidades. São jornalistas, produtores e comunicadores que foram até os moradores, apuraram histórias, tiraram fotos e produziram conteúdos que mantêm a favela bem informada. Nesta reportagem, destacamos duas mulheres pretas que participaram ativamente desse processo.
Alana Nascimento: o rosto do audiovisual no Voz das Comunidades
Alana Nascimento é o nome, ou melhor, a cara do Voz das Comunidades quando o assunto são matérias em vídeo. Cearense e formada em jornalismo, ela já mostrou muito das favelas nas telas do jornal. “Comecei com um boletim de notícias aos sábados, com o Renato Silva. Ver o quanto o Voz contribuiu na minha vida me deixa imensamente grata e feliz.”

Entre as pautas mais marcantes, Alana cita o caso dos garotos do Tuiuti. “Acompanhamos desde o início, com todas as informações, até que a história repercutiu nacionalmente. No fim, os meninos foram soltos. A família agradeceu pela nossa humanidade, além do profissionalismo. Isso é o que mais marca: a gente se coloca no lugar dessas pessoas.”
Graças ao trabalho no Voz, Alana também apareceu em emissoras como Band, Globo e SBT. Já entrevistou nomes como Dudu Nobre, Valesca Popozuda e o presidente Lula. “E foram duas vezes, tá?”, conta, rindo. Mas sua trajetória vai além das grandes entrevistas: ela lembra com carinho do programa Bom Dia Voz, criado para levar informação direta aos moradores durante a pandemia. “Foi ali que conseguimos entrevistar o Drauzio Varella. Foi surreal, porque as perguntas vieram dos próprios moradores. Uma das vizinhas até hoje diz que não acredita que o Drauzio respondeu a pergunta dela.”
A paixão de Alana pelo jornalismo nasceu cedo, ainda no Ceará, inspirada pelo avô analfabeto que pedia que ela traduzisse as notícias do Jornal Nacional. Chegou a cursar Enfermagem, mas desistiu para seguir o sonho da comunicação. No interior, chegou até a ter um programa infantil em uma rádio clandestina do tio. Essa experiência, unida ao desejo de contar histórias reais, acabou moldando sua escolha pelo jornalismo comunitário.
No Voz, ela viveu coberturas que a marcaram profundamente, como a entrevista com a mãe de Ágatha Félix, anos após a morte da menina. “Foi um momento de muito respeito. Ela agradeceu por como foi ouvida aqui, algo que talvez não tivesse sentido em outros lugares”, relembra. Outra memória é o caso do “tio da plaquinha”, morador que improvisava sinalização para ajudar pedestres a atravessarem a rua. A reportagem simples ganhou repercussão e solucionou o problema de mobilidade na região.
Hoje, Alana também atua como coordenadora do audiovisual do Voz, liderando novos comunicadores que chegam à equipe. “Quando comecei, tive a ajuda do Renato, que me orientou. Agora posso fazer o mesmo com essa galera. Mais do que um cargo, isso mostra a confiança no nosso trabalho.” Olhando para frente, ela sonha alto: “Quero ver nascer a TV Voz, um espaço para mostrar ainda mais as histórias da favela com dignidade, respeito e verdade.”
Amanda Botelho: Talento jornalístico cria do Voz das Comunidades
Um dos diferenciais do Voz é ser uma verdadeira escola de comunicação. Foi assim com Amanda Botelho. Cria do Morro da Formiga, integrou o jornal de 2020 a 2022. “Comecei no impresso, depois fui pro portal e por fim entrei no audiovisual. O tanto que eu aprendi foi precioso.”
A cobertura constante nas favelas a aproximou dos moradores. “A escadaria da Palmeiras era toda hora. Chegamos num ponto de ganhar café da manhã! Os moradores eram muito receptivos.” Essa relação com a comunidade marcou sua passagem, assim como a responsabilidade de transformar demandas locais em pautas que pressionassem o poder público. “Eu fico imaginando se tivesse um Voz na minha infância. O jornalismo comunitário faz diferença porque dá visibilidade pra problemas sociais, mas também exalta a cultura da favela, abre espaço pra artistas e inspira jovens a acreditarem em outros caminhos.”

Hoje em São Paulo, Amanda relembra com carinho a cobertura do carnaval na Sapucaí. “Foi o primeiro pós-pandemia. Era meu aniversário e eu tava lá na avenida, fazendo algo que eu nunca imaginaria. Quando o Salgueiro entrou, não sabia se cobria ou se chorava.” Experiências como essa, assim como a oportunidade de estar no Rock in Rio como apresentadora do Voz, foram momentos inesquecíveis. Mas nem tudo foi leve: ela recorda o medo ao sofrer violência policial durante uma cobertura e o impacto emocional de narrar a morte de Kathlen Romeu, jovem grávida assassinada no Complexo do Lins. “Podia ser eu no lugar dela. Isso mexeu muito comigo.”
Reconhecida até no Mercadão de Madureira, Amanda se orgulha da sua passagem pelo jornal. “Não acho que deixei um legado, apenas dei continuidade ao que já existia. Mas deixei uma parada maneira. O Voz é a prova de que o jornalismo comunitário é essencial pras favelas do Rio.”
Para ela, o maior diferencial está em falar com e para os moradores, dando palco a histórias que de outra forma seriam ignoradas. “O Voz confiou em mim, acreditou em mim e mudou minha vida. Hoje, eu só me vejo no audiovisual porque o Voz me mostrou que esse era o meu caminho.”
Melissa Cannabrava: Mais de 10 anos de Voz das Comunidades
14 de janeiro de 2013. A data é inesquecível para Melissa Cannabrava. Foi nesse dia que ela se encontrou com Rene Silva e começou sua trajetória como voluntária no Voz, que na época passava pelo processo de se tornar uma ONG. Nascida na Gardênia Azul e cria do Morro do Adeus, Mel, como é carinhosamente chamada, teve sua estreia na reportagem cobrindo um enxame de abelhas que estava atacando moradores no Adeus. “Fiz a reportagem com o Betinho (Casas Novas), minha primeira dupla no jornalismo. Fomos até lá e depois subimos no portal. Foi a primeira matéria”.

Entre tantas coberturas marcantes, uma se destaca: o caso do menino Wesley. “A mãe me ligou chorando, dizendo que ele foi preso injustamente. Apurei o caso o fim de semana inteiro. Na segunda, entrevistei ela ao vivo e depois a acompanhei na Defensoria e até Benfica. Ele foi solto. Até hoje, essa mãe me abraça quando me vê.”
Melissa passou por diversas funções: colaborou no portal, liderou o time de voluntários e, anos depois, se tornou coordenadora de comunicação. Sua paixão maior, no entanto, era o jornal impresso, projeto que considera o carro-chefe da organização por ter sido a forma como a ONG começou. “O link [da internet] some, expira e apaga. Mas o impresso você guarda. É memória. Tenho todas as edições que editei em casa”, conta orgulhosa.
Após um afastamento em 2018 para cuidar do pai, ela retornou no ano seguinte. Ali, ela já sentiu uma diferença na dinâmica. Nesse momento, Rene a convidou para assumir um cargo de coordenação de comunicação, cargo que assumiu até o fim de 2024. Nesse meio tempo, a jornalista também levou o jornal para Salvador, onde liderou as primeiras edições impressas na região de Amaralina. Ela considera o projeto um desafio gigantesco, já que a equipe era formada por voluntários em outro estado. “Eu representei Voz na Bahia, eu representei Voz em São Paulo, já fui ao Rio Grande do Sul, já, enfim, vários outros lugares de Vitória, Espírito Santo, né? Então já já passei por momentos de como representante do Voz ao lado do Rene, fazendo essas viagens com ele durante muitos e muitos anos, né?”
Com Melissa à frente do jornal impresso, o Voz das Comunidades foi premiado no 11º Prêmio SEBRAE de Jornalismo, 2024. O jornal impresso foi premiado com o 2º e 3º lugar em duas reportagens na categoria fotojornalismo, com fotos de Igor Albuquerque. Os jornalistas Marco Kiko, da comunidade do Vidigal, e Lucas Feitosa, da Maré, integravam o time de colaboradores do jornal impresso e conquistaram, respectivamente, 2º e 3º lugar por suas reportagens produzidas.

Mesmo não estando mais na organização, Melissa considera o Voz das Comunidades um grande personagem na sua carreira jornalística. “O Voz foi um espelho. Ensinei e aprendi muito. Sou cria do Alemão, sou cria do Voz. Esse pertencimento ninguém me tira”.
Vilma Ribeiro: “Eu cheguei crua e o Voz foi me lapidando como fotógrafa”
Vilma Ribeiro, cria do Complexo do Alemão, primogênita de 5 irmãos, tomou para si a responsabilidade do cuidado. E isso ela exerce até hoje como fotógrafa e produtora, mas acima de tudo, como uma mãe que cuida dos colegas de organização. Vilma entrou no Voz das Comunidades em 2018, escolhida após uma seleção de voluntários.

“A Melissa me escolheu pelo perfil de ter mais idade, de ser uma pessoa nova na organização, ser crua de técnica. Eu, quando eu cheguei no Voz, era muito crua. Eu já vinha fazendo fotos pelo morro quando tinha uma festa na rua ou de criança… E perguntava se podia fazer as fotos para treinar.”
Vilma fazia curso de fotografia na Nave do Conhecimento na época e precisava aperfeiçoar sua técnica. Integrada ao time, Vilma foi se aperfeiçoando com o tempo. Como fotógrafa, quem a acompanhava nas pautas era Renato (irmão de Rene) que lhe dava dicas durante o trabalho. “O Renato me fez ver que eu posso tudo, eu posso o que eu quiser. Ele acreditou em mim e fez eu acreditar em mim também.”
Atualmente, além de fotógrafa, Vilma atua como cinegrafista e produtora, cobrindo desde pautas de problemas sociais até grandes eventos como Carnaval, Rio Parada Funk e o Rock in Rio. Para ela, o Voz foi mais que uma oportunidade de trabalho, foi uma nova visão de vida. “Minha armadura é a camisa do Voz das Comunidades. Quando o Voz chega, o morador fala ‘Caramba, que bom, o voz chegou’. Então, aquela fala daquele morador me desperta um sentimento de que somos importantes para ela. Eu fazendo aquela foto, eu ajudando numa filmagem, eu pegando uma informação. Eu sei que isso tudo vai ser importante para aquela matéria e ela ter um resultado benéfico para o caso daquela pessoa. E isso me deixa muito feliz.”
E muitos mais…
Ao longo desses 20 anos, outras pessoas também ajudaram a construir o Voz das Comunidades. Nomes como Thayná de Souza, Vitória Henriques, Matheus Andrade, Maria Morganti, Gustavo Eduardo (in memorian), Josiane Santana, Daiene Mendes, entre tantas outros que foram fundamentais para ampliar a voz das favelas e fortalecer a comunicação feita a partir do território.
