Os moradores do Complexo da Maré e da Rocinha, duas das maiores favelas do Rio de Janeiro, passaram por muitas dificuldades para votar no primeiro turno das eleições, no domingo (4). E o resultado aparece nos números: muita gente não conseguiu votar ou desistiu no meio do caminho.
No Complexo da Maré, 28,46% dos eleitores não foram às urnas. É quase um em cada três moradores. No Brasil inteiro, essa taxa, chamada de abstenção, foi de 21,08%. Ou seja, na Maré faltou muito mais gente do que no resto do país. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foram divulgados pelo UOL.
Um dos motivos é que, neste ano, mais da metade dos eleitores da Maré (52%) teve que votar fora da favela. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) mudou os locais de votação. Segundo o tribunal, a mudança foi feita por segurança, porque o voto não poderia acontecer em áreas dominadas pelo poder paralelo, onde o eleitor poderia ser ameaçado ou pressionado.
No domingo, o juiz Marcello Rubioli, responsável pela fiscalização do TRE-RJ, disse que a mudança não ia fazer menos gente votar. Para ele, as filas mostravam que muita gente estava participando. Mas quem estava na rua viu outra coisa. A ONG Redes da Maré contou que muitos moradores esperaram até quatro horas na fila, na calçada, debaixo de sol forte. Muita gente cansou e foi embora sem votar. Os idosos foram os que mais sofreram, porque precisaram andar muito para chegar até as novas seções.

Na zona eleitoral 161, que recebeu os cinco locais de votação que saíram da Maré, 92 mil pessoas puderam votar. Dessas, 26 mil não apareceram. Entre os votos registrados ali, Lula (PT) ficou com 53,78% e Flávio Bolsonaro (PL), com 39%.
Na Rocinha, a situação foi parecida. A maior favela do Brasil tem cerca de 100 mil moradores, e 26,86% deles não votaram. São quase 27 mil pessoas. No Ciep Ayrton Senna da Silva, na zona 211, a fila chegou a um quilômetro e meio na manhã de domingo.
Dos 73 mil votos contados na Rocinha, 58% foram para Lula e 32% para Flávio Bolsonaro. Em 2022, a comunidade tinha dado 78% dos votos a Lula, a maior votação dele entre todos os bairros do Rio.
Quem não conseguiu votar precisa justificar a falta em até 60 dias depois da eleição. Dá para fazer isso pelo aplicativo e-Título, no celular, ou indo a um cartório eleitoral. Quem não justifica pode pagar uma multa e ter problemas para tirar documentos como passaporte e carteira de identidade, ou para assumir um emprego público.
