A Praça São Lucas e a Quadra Comunitária, localizadas na Estrada José Rucas, na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Zona Norte do Rio, foram tomadas por abraços, lágrimas, arte e muita reivindicação na última quarta (28). O ato marcou um ano da chacina na Penha e Alemão, reunindo familiares, mães de vítimas de violência do estado, moradores e movimentos sociais em uma programação intensa voltada para o acolhimento, a denúncia e a preservação da memória daqueles que tiveram suas vidas interrompidas pela violência letal do Estado.
Organizado pela Frente Penha, o evento buscou transformar o luto coletivo em instrumento de luta política e resistência. A programação começou logo às 14h, garantindo suporte direto aos moradores por meio de um espaço de acolhimento em saúde, oferta de serviços e direitos, recreação infantil e um forte almoço comunitário que reuniu as famílias afetadas.

O peso da ausência e a cobrança firme por justiça
Para quem viveu a tragédia de perto, a data não representa apenas a passagem do tempo, mas a reiteração diária de um pesadelo e a ausência crônica de respostas institucionais. Retornar ao local da perda exigiu coragem indescritível das mães e parentes presentes.
Taua, mãe do Wellington Brito, descreveu com dor visceral o que significa pisar novamente no território onde tudo aconteceu. “Onde eu falo com você, exatamente neste local era onde ficou o corpo do meu filho… Para mim estar hoje aqui é muito difícil, ainda que eu queira mudar esse cenário de dor, eu sempre vejo meu filho caído no chão. A vida perde o sentido quando uma mãe perde um filho, mas vou continuar pelo meu filho.”
No mesmo sentido, Rakhel Rios mãe do Yago Ravel relatou o eco da violência na rotina e na alma das famílias. “Pisar aqui é voltar para aquele dia, é reviver aquele pesadelo. Estou aqui por reparação, por justiça, é por mim, pela minha dor, pela dor de outras mães, pela memória do meu filho.”
O trauma gerado pela carnificina também marcou profundamente as estruturas familiares. A irmã de Alessandro Alves, Larissa Rodrigues Alves, destacou a ferida aberta deixada pela perda do irmão. “Ficou um vazio enorme, acabou com a nossa família. Meus pais choram, minha mãe não teve condições de reconhecer o corpo… eu tive que ver meu irmão nesse chão.”

Além da saudade, a ausência de amparo governamental e o abandono estatal aos órfãos e dependentes das vítimas foram denunciados com indignação. A esposa do Ronaldo Julião da Silva, morto na ação, que trabalhava como Pedreiro, sustentava o lar e tinha seis filhos, agora sob a responsabilidade exclusiva da mãe, desabafou sobre a negligência. “Meu marido era pedreiro, não tinha nada a ver, ele que trazia renda para dentro de casa. Fiquei sozinha com 6 crianças, não tive apoio nenhum, as crianças não tiveram apoio psicológico, estou desempregada e hoje vejo o mesmo cenário de antes, não mudou nada.”
A violência institucional e a força da organização popular
Presente no ato, a vereadora Mônica Benício fez uma análise clara sobre o racismo de Estado que orienta as políticas de segurança pública no Rio de Janeiro e a urgência de apostar na organização coletiva das favelas. “É muito revoltante ver o Estado do Rio de Janeiro com um projeto de segurança pública que massacra pobre, preto e favelado, que olha para a favela como um território criminoso e só oferece o braço armado. Em contrapartida, temos um povo que se organiza, cobra e tem muita capacidade para transformar.”
A condução sensível e firme do mestre de cerimônias Tauã deu ritmo à tarde de mobilização. O palco e o entorno da praça foram ocupados por expressões de cultura ancestral e urbana, reafirmando que a favela resiste e se expressa através da arte. Passaram pelo espaço a Roda de Jongo, o Grupo de Passinho, intervenções poéticas emocionantes com Nathan e uma vigorosa apresentação de Capoeira sob o sol da Penha.

O ponto alto da denúncia política e da articulação coletiva ocorreu com a leitura da Carta de Repúdio da comunidade e com a participação de coletivos históricos na mesa “Vozes da Luta”, que contou com as presenças marcantes de Deborah (Mães de Maio) e do movimento Mães de Manguinhos.
A jornada de solidariedade e afeto se encerrou com a distribuição de 122 cestas básicas às famílias impactadas e um ato ecumênico de conforto e bênção final ministrado por uma pastora, selando o compromisso inegociável de que a memória das vítimas continuará viva na luta por justiça.
