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‘A favela também nasceu pra vencer’: Cria da Vila Kennedy conquista bolsa em uma das maiores universidades do mundo

Thalles Winner, de 23 anos, comoveu a internet ao compartilhar sua aprovação com bolsa integral em Yale, nos Estados Unidos, anos após se mudar com a família

Foto: Arquivo pessoal
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Em 2016, a vida de Thalles Winner mudou drasticamente após um episódio que já faz parte da realidade de milhares moradores de favela. Ele dormia em sua casa, na Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando um intenso tiroteio atingiu o imóvel. As marcas das balas ficaram nas paredes do quarto, mas o trauma empurrou a família para uma decisão extrema. Diante do medo constante e da falta de perspectiva, sua mãe, Dona Mauricéia, resolveu largar tudo e tentar recomeçar a vida com os filhos nos Estados Unidos, focada apenas na sobrevivência deles.

Dez anos após o desembarque em solo americano, a persistência de Thalles colheu um fruto extraordinário. Aos 23 anos, o jovem acaba de ser aceito na prestigiada Universidade de Yale, uma das instituições de ensino mais concorridas e respeitadas do planeta. Ele conquistou uma bolsa integral e vai cursar Ciência Política e Economia a partir de agosto deste ano, através de um programa voltado para estudantes com trajetórias de vida não tradicionais.

A vitória de Thalles, no entanto, não aconteceu do dia para a noite. O Voz das Comunidades acompanha os passos do estudante desde 2018, quando publicou uma matéria destacando o jovem após ele receber um prêmio de melhor estudante de sua escola de idiomas nos EUA. Na época, ele já conciliava a rotina exaustiva de trabalho com o aprendizado da nova língua, mostrando o potencial que agora o levou ao topo do meio acadêmico mundial.

O choro da mãe e a quebra de estatísticas

Thalles agradece a Dona Mauriceia sua mãe por todo o apoio Foto: Arquivo pessoal

A maior inspiração para a conquista, segundo Thalles, vem da própria estrutura familiar. Sua mãe ficou órfã aos 10 anos, viveu em situação de rua durante a infância e criou quatro filhos sozinha. Para ele, ver a reação dela ao saber da aprovação foi o momento mais marcante de toda a jornada.

“Ela chorou muito. Para ela, Yale não foi só uma aprovação em uma universidade. Foi a confirmação de que todo o sofrimento, todas as noites sem saber como seria o amanhã, toda a coragem que ela teve para sair do Brasil valeu a pena. Senti que aquela vitória também era dela. Na verdade, era principalmente dela”, emociona-se o estudante.

Ao viralizar nas redes sociais compartilhando a conquista, Thalles usou o termo “improvável” para definir como a sociedade enxerga os jovens que vêm de territórios periféricos. Ele ressalta que sua história não deve ser tratada como um milagre isolado, mas sim como um alerta sobre a falta de direitos básicos nas comunidades brasileiras.

“O jovem da favela não precisa de pena. Ele precisa de oportunidade, educação de qualidade, segurança, incentivo e pessoas que acreditem nele. Muitos jovens têm talento, inteligência e sonhos enormes, mas vivem em lugares onde sobreviver já é uma luta diária. Talento existe na favela. O que falta muitas vezes é acesso”, defende Thalles.

Planos de voltar e recado para a VK

Mesmo morando fora do Brasil há uma década, o estudante reforça que carrega o país e as suas origens em tudo o que faz. Ele sente falta da família, da cultura e da capacidade do povo brasileiro de sorrir diante das dificuldades, e já faz planos para o pós-formatura. “Eu quero voltar para contribuir de alguma maneira, principalmente com educação, juventude, política pública e oportunidades para jovens de comunidades como a Vila Kennedy”, planeja.

Para os jovens que hoje acordam na Vila Kennedy enfrentando os mesmos desafios e a mesma violência que o cercavam no passado, o futuro cientista político deixa um recado direto, focado na resistência e na autoestima da periferia.

“Eu também fui esse menino. Eu também me senti perdido e achei que talvez não tivesse futuro. O meu conselho é: continue. Estude, procure ajuda, agarre cada oportunidade, não tenha vergonha da sua história e não deixe ninguém te convencer de que você nasceu para perder. A favela também nasceu pra vencer”, finaliza.

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