As favelas da Zona Sul do Rio guardam atrações potentes para quem decide subir o morro. Para além do tradicional circuito turístico do Vidigal e da imensidão da Rocinha, comunidades com menor fluxo de visitantes também têm seus trunfos. É o caso do Chapéu Mangueira, no Leme, que abriga um gigante da gastronomia nacional com o legítimo DNA de favela: o Bar do David.
Integrando o Guia Oficial da cidade e reconhecido pelo New York Times, o que começou como uma birosca em 2002 chegou ao posto de melhor boteco do Brasil. “Eu abri o bar quando tinha 38 anos”, relata David Bispo, que comanda o balcão. “Meu pai que construiu o espaço. Era bem pequenininho. Quando abri, ele falou: ‘Você vai ter que construir o melhor bar da favela’. Cinco anos depois, conquistei o título de melhor do país.”
Até chegar a este posto, o sucesso do estabelecimento reflete um imenso legado de resistência territorial. A jornada está enraizada na coragem do pai de David, liderança responsável por registrar o Chapéu Mangueira como a primeira associação de moradores da região. Durante a ditadura militar, o patriarca lutou contra as remoções e ajudou a fundar a FAFERJ. Herdando essa perseverança, David resistiu e o negócio ganhou fama dentro e fora da comunidade.
Tradição, persistência e reconhecimento
David tem formação em gastronomia e aplica a técnica à tradição do boteco. “Nós fazemos o que chamamos de comida afetiva. Além do sabor e do tempero, oferecemos cordialidade e respeito para quem chega”. O cardápio preserva as receitas da mãe, hoje conduzidas pela quarta geração da família. Muito além de servir refeições, o local carrega o peso da representatividade. “Não é só um bar que vende comida, é um ponto que quebra preconceito. Fico feliz por ser referência para as crianças. É um bar de favelado e negro”, orgulha-se. Além da experiência aos visitantes, o negócio transformou a via em uma vila comercial movimentada e se tornou porta de entrada para o mercado de trabalho, garantindo a primeira carteira assinada de diversos vizinhos.

Em 2011, o bar fez história ao ser o primeiro estabelecimento de favela premiado no Comida di Boteco. Ele relembra a mudança de visão sobre o próprio negócio: “Achei que não estava em tom de igualdade. Achava que eu era pequeno, mas na verdade era muito grande. Eu tinha a favela ao meu lado e isso fez toda a diferença.”
A atuação social de David ultrapassou os limites locais e chegou à Assembleia Legislativa (Alerj). O empreendedor participou de audiências para reverter a histórica exclusão das favelas dos mapas oficiais cariocas. Para ele, a favela é a pura essência cultural do país, refletida na dança, na música e na culinária.
Com uma filial também em Copacabana, David agora busca o tetracampeonato no Comida di Boteco. A aposta é um prato de conchas de macarrão frito recheadas com frutos do mar e pesto de couve, provando que a alta gastronomia mora no morro. Atualmente, amparado pela técnica acadêmica, ele reafirma o dever de representar seu território. “Meu sonho é sentar no bar do vizinho, pedir uma cerveja e ver o meu funcionando. Vamos buscar esse título representando bem as nossas favelas”, afirma, animado.


