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Teia de Solidariedade: A luta das mulheres da Zona Oeste por comida, memória e dignidade

Coletivo nascido na pandemia une quilombos, agricultores e moradores em rede de apoio que vai além da cesta básica

Reunião do coletivo na rua Foto: Reprodução
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Em março de 2020, quando o mundo parava por causa da pandemia de coronavírus, um grupo de mulheres da Zona Oeste do Rio de Janeiro se reuniu para falar sobre o direito à cidade. O encontro ganhou um novo rumo diante da fome e da falta de comida que atingia comunidades já castigadas pela violência e pelo abandono do poder público. Assim nasceu a Teia de Solidariedade da Zona Oeste.

Silvia Batista, quilombola e uma das articuladoras do grupo, conta que o nome Teia surgiu da ideia de conexão entre as pessoas. “A gente não é uma organização clássica, a gente é uma prática. É uma práxis: a gente pratica, reflete, pratica”, explica. Segundo ela, o coletivo não tem regras fixas, mas se constrói no dia a dia. As mulheres se unem por afinidade e por necessidade, cada uma com sua própria história, mas todas com o mesmo objetivo, cuidar umas das outras e do território onde vivem.

Da cesta básica à horta comunitária

Leonídia, professora de história e liderança no Quilombo Dona Bilina, lembra que a ideia da horta surgiu durante a distribuição de cestas básicas na pandemia. “A gente percebeu que na cesta não tinha verduras, não tinha alimentos que realmente nutrem. Tinha arroz, feijão, macarrão, óleo e sal. Dava para você ficar de pé e trabalhar, mas não te alimentava de verdade”, diz.

Foi assim que um terreno de 660 metros quadrados, ao lado da casa de Leonídia, virou uma horta coletiva. No começo, cerca de 30 famílias participaram dos mutirões de plantio. Atualmente, entre 7 e 10 pessoas cuidam do espaço com regularidade, mas a produção já ajudou centenas de famílias durante os anos mais difíceis da pandemia. Além de couve, alface e outras verduras, a horta também tem plantas medicinais e espécies nativas, como taioba e bertalha, tudo plantado sem uso de veneno. “A gente não produz toneladas, mas produz comida de verdade e sem agrotóxico”, orgulha-se Leonídia.

Uma luta que vai além da comida

O trabalho da Teia não se resume à alimentação. O coletivo também atua na geração de renda, no combate à violência contra a mulher, na luta por saneamento básico e contra o racismo ambiental. Silvia Batista destaca que a Zona Oeste tem uma desigualdade que muitas vezes fica escondida. “A extrema pobreza não é concentrada. Ela está escondida atrás de um condomínio de luxo. São muitas pequenas favelas, pequenas ocupações com um cenário de vulnerabilidade inacreditável”, descreve. Para ela, “a fome como projeto político de subalternização de corpos” é uma violência que se estende no tempo.

Memória e ancestralidade

A horta também está ligada ao EcoMuseu Dona Bilina, projeto que resgata a memória do quilombo. “O EcoMuseu é um museu andado. É aquele lugar que guarda as memórias, parando na casa da Dona Maria para tomar um café, escutando as histórias dela”, explica Leonídia. O espaço recebe visitas de escolas e universidades. “Teve uma pessoa que perguntou: ‘Cadê o quilombo?’ Eu respondi: ‘Você está no quilombo’. As pessoas esperam uma fantasia, mas a gente está aqui, vivo, resistindo”, conta.

Desafios que continuam

A falta de uma sede própria é um dos maiores problemas. “Eu levei a sede praticamente para minha casa, acabou a vida privada”, desabafa Leonídia. A dependência de editais públicos também pesa. “É um sofrimento participar de cada edital. A gente acha que deveria ter mais participação na construção dessas políticas públicas”, defende.

Ainda assim, o Quilombo Dona Bilina se tornou o primeiro quilombo a executar o Programa de Aquisição de Alimentos do governo federal. Para Silvia, o importante é que a Teia continue sendo “um jeito de querer fazer as coisas”. Leonídia sonha com um território de dignidade e resume, “a riqueza não está só na conta bancária”.

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Coletivo Teia de Solidariedade Foto: Reprodução
Teia 2
Os alimentos da horta comunitária Foto: Reprodução

Siga o coletivo no Instagram (@teiasolidariedadzo).

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