Em apenas cinco meses, entre janeiro e junho deste ano, o Corpo de Bombeiros foi acionado 67 vezes para atender ocorrências de trânsito na região do Complexo do Alemão e adjacências. O número acende um sinal de alerta para o poder público e para quem vive e circula diariamente pelas vias da Zona Norte do Rio. Entre os registros, a maioria absoluta envolve motocicletas, um retrato do dia a dia de uma área onde o veículo de duas rodas é o principal meio de locomoção para o trabalho e o lazer.
Os dados, obtidos com exclusividade pelo Voz das Comunidades junto à Assessoria de Comunicação Social do CBMERJ, mostram que as colisões entre carro e moto foram as mais frequentes: 27 ocorrências. Em seguida, vêm as quedas de moto, com 18 acionamentos. Também foram registradas colisões de moto contra poste (3), moto contra moto (7), moto contra bicicleta (2), além de 1 acidente envolvendo ônibus e moto. Carros também se envolveram em batidas entre si (4) e em capotagens (1). Os atropelamentos somaram 4 casos, 3 por carro e 1 por moto.
O total de 67 chamados, no entanto, é apenas a ponta do iceberg e não representa a totalidade dos acidentes ocorridos. Muitos acidentes não são registrados oficialmente ou sequer chegam a ser comunicados às autoridades, seja por medo de burocracia ou pela normalização da violência no trânsito local, ou são registradas por outros órgãos, como Detran e Polícia Militar.
O drama das estatísticas ganha rosto e nome na história de Mônica Soares Fernandes, moradora da região. Ela perdeu o filho, Théo Fernandes Mota, de apenas 9 anos, vítima de um acidente entre moto e ônibus na Estrada do Itararé, em uma quinta-feira (11/06). A dor da perda se transformou em cobrança. Em entrevista ao Voz das Comunidades, Mônica foi direta ao apontar o que, na visão dela, poderia ter evitado a tragédia.
“Está precisando urgentemente de uma fiscalização ostensiva, com uso de radares inteligentes e blitz. Isso inibe infrações graves, como excesso de velocidade. Eu acho que se tivesse tudo isso, meu filho estaria vivo e aqui do meu lado”, desabafou a mãe, com a voz embargada pela saudade.
O depoimento de Mônica reflete o sentimento de muitos moradores do Complexo do Alemão e arredores, que convivem diariamente com o medo e a insegurança no trânsito. A falta de fiscalização e a imprudência de motoristas e motociclistas são apontadas como os principais fatores para a alta incidência de acidentes.
Quem confirma essa realidade na pele é o mototaxista Guilherme Kauaw, de 22 anos, que roda diariamente pelas vias da região. Em entrevista ao Voz das Comunidades, ele destacou os horários críticos e as principais causas dos acidentes na Estrada do Itararé, uma das mais movimentadas e perigosas do Complexo. Segundo Guilherme, os picos de perigo acontecem em momentos específicos do dia, quando o fluxo de veículos atinge seu ápice.
“11 horas e… de 11h da manhã ao meio-dia e de 17h da tarde às 18h30”, afirmou Guilherme, ao ser perguntado sobre os períodos de maior risco. Ele também detalhou como o fluxo intenso no fim da tarde agrava a situação. “Na parte da tarde assim é o pior horário. Quando geral tá voltando do trabalho, o trânsito fica, ó, fica grandão, aí causa muito acidente também. Bagulho de trânsito é ‘complicado’.” Esses horários coincidem com os momentos de maior movimento nas portas das fábricas e comércios locais, onde a pressa para chegar em casa faz com que muitos ignorem as regras básicas de segurança.
Na visão do profissional que está na pista todos os dias, a principal causa dos acidentes é a falta de atenção generalizada. “Ah, a principal causa é… falta de atenção, né, dos motorista do carro, das moto também. Infelizmente é… tá se tornando diariamente, né? Toda hora tem um acidente. Falta de responsabilidade”, desabafou o jovem, que já perdeu a conta de quantas vezes precisou desviar de veículos parados bruscamente ou de motoqueiros fazendo manobras arriscadas.
Assim como Mônica, Guilherme também cobra mais fiscalização como medida urgente para reduzir as ocorrências. Quando questionado sobre o que a prefeitura ou os órgãos de trânsito deveriam fazer, ele foi enfático. “Mais fiscalização.” E complementou, ao ser perguntado sobre a instalação de pardais e redutores de velocidade: “Os dois. Pardal, fiscalização. Isso aí.” Para ele, a presença da CET-Rio nas ruas ainda é muito tímida, e a falta de radares fixos na Estrada do Itararé incentiva o excesso de velocidade, especialmente nos trechos mais retos.
O tenente-coronel Fábio Contreras, do Corpo de Bombeiros, ressalta que a maioria dos acidentes poderia ser evitada com atitudes simples e respeito entre todos que dividem a via. Em nota, ele destacou a importância de medidas básicas que fazem a diferença entre a vida e a morte.
“Começa pelo básico: usar o cinto de segurança, inclusive no banco de trás, pode ser o que separa a vida da morte em um acidente. Além disso, o uso do telefone celular por motociclistas e motoristas tem sido responsável por diversos acidentes. Uma mínima distração certamente pode ser fatal”, alertou o oficial.
Ele também chamou a atenção para a velocidade. “Quanto mais rápido, mais energia envolvida no acidente e mais graves são as lesões. E, é claro, se for beber, jamais dirigir. O trânsito seguro se faz com atenção, respeito e escolhas conscientes.”
As palavras do tenente-coronel encontram eco nos números: a maioria dos acidentes com motos envolve fatores que poderiam ser controlados, como excesso de velocidade, desatenção e falta de equipamentos de segurança.
Procurada pelo Voz das Comunidades, a CET-Rio (Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro) informou que desenvolve ações educativas voltadas para a mudança de comportamento e valorização da vida. De acordo com a companhia, essas atividades são realizadas tanto de forma permanente quanto em campanhas específicas ao longo do ano, como no Maio Amarelo, no Dia do Motociclista e na Semana Nacional do Trânsito.
A CET-Rio destacou que seus educadores para a mobilidade atuam diariamente nas ruas, especialmente em locais com grande concentração de motociclistas, realizando abordagens diretas com orientações sobre condução segura, respeito à sinalização e convivência com os demais usuários da via.
A Praça das Nações, em Bonsucesso, já recebeu uma ação educativa em janeiro deste ano, impactando moradores da região do Complexo do Alemão. Além disso, o programa “A Caminho da Escola 2.0”, desenvolvido pela CET-Rio em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, contemplou uma unidade da região: a Escola Municipal Afonso Várzea. O objetivo do programa é promover mais segurança viária no entorno das unidades escolares com a participação ativa da comunidade escolar.
A CET-Rio afirmou ainda que pretende promover outras ações no segundo semestre deste ano e está aberta para atender as demandas da comunidade local, embora não tenha detalhado um cronograma específico para a região do Alemão.
Apesar das iniciativas, moradores e trabalhadores do trânsito avaliam que as ações ainda são insuficientes diante da gravidade do problema. A demanda por fiscalização ostensiva, com radares e blitz, é uma das principais reivindicações. A instalação de lombadas e a melhoria da sinalização são apontadas como medidas urgentes.
O movimento por um trânsito mais humano e seguro é uma batalha diária que exige o empenho conjunto de motoristas, motociclistas, moradores e do poder público.



