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Raiz, Afeto e Transformação: Conheça o trabalho do Moral de Cria, projeto comandado por Jack Favela

Localizada no coração do Complexo do Andaraí, iniciativa que nasceu do incômodo com a ausência do poder público hoje transforma o cotidiano de centenas de famílias através da cultura, cuidado ambiental e economia circular

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Projeto Moral de Cria Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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No Complexo do Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro, os becos e praças da favela Sá Viana ganharam novas cores, ritmos e perspectivas nos últimos anos. O responsável por essa mudança é o coletivo Moral de Cria, uma organização da sociedade civil fundada em 2018 que nasceu com a missão urgente de oferecer proteção, desenvolvimento e senso de pertencimento para as crianças do território.

O que começou como uma resposta voluntária e imediata de moradores para suprir a falta de políticas públicas locais, cresceu e ganhou corpo. Recentemente, a instituição alcançou um marco histórico: foi certificada oficialmente como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura (MinC), além de sua diretora fundadora, Jaqueline Bispo dos Santos, carinhosamente conhecida como Jack Favela, ter recebido uma Moção de Louvor e Reconhecimento da Câmara Municipal do Rio de Janeiro por sua liderança e dedicação.

“O Moral de Cria nasceu do incômodo da ausência de políticas públicas dentro do meu território. Então, eu apenas fazia. Apenas existia produzindo ações para a favela, sem perceber a dimensão do que aquilo representava”, relembra Jack Favela.

O Ciclo do Acolhimento: Quem Foi Aluno Vira Professor

O Moral de Cria atua diretamente na base, oferecendo oficinas contínuas de dança, capoeira, percussão e jongo. Um dos maiores orgulhos do projeto é o caráter cíclico e comunitário de seu corpo docente. Os educadores que hoje tocam as atividades na Praça Nobel e no Renascença Clube são crias da própria comunidade e antigos alunos de projetos sociais da adolescência de Jack, como o Projeto MEL, que teve forte influência do mestre Carlinhos do Salgueiro.

Atualmente, professores, como Rogério e Rihanna que comandam a dança para 25 crianças e jovens todas as quintas-feiras, dividem espaço com nomes consagrados do território, como o Mestre Marquinhos Osório (da escola Flor da Mina do Andaraí e Salgueiro) na percussão, o Mestre Leonardo no jongo, e o Mestre Dido, que lidera as rodas de capoeira com sua bagagem de 50 anos de história no esporte.

“Esse ciclo fortalece nossa identidade e o orgulho de sermos do Andaraí. Mostra para as crianças que elas podem crescer dentro do território sem abandonar suas raízes”, destaca a fundadora.

Cinema no Beco e Moeda Ecológica: Soluções com a Cara da Favela

Além das oficinas fixas, o coletivo Moral de Cria vem ampliando sua atuação com iniciativas que impactam diretamente a vida dos moradores do Andaraí.

O Projeto Janela, um cinema itinerante, leva sessões a praças, becos, quadras e pátios escolares, reunindo em média 150 crianças por exibição. A proposta surgiu da constatação de que o acesso às salas tradicionais de cinema era distante para a maioria das famílias da região. Com direito a pipoca e lanches saudáveis, o audiovisual é usado como ferramenta de debate e reflexão.

Outra frente é o Ecomoral, que transformou um antigo ponto de descarte irregular de lixo em uma horta comunitária sem agrotóxicos. O espaço promove educação ambiental e segurança alimentar, aliado ao sistema de Moeda Ecológica, que permite a troca de materiais recicláveis por kits de higiene e limpeza.

Atualmente, o projeto atende cerca de 120 famílias. “Muitas dessas mães já não precisam comprar produtos básicos como sabão, cloro e detergente. O dinheiro economizado complementa a alimentação da casa. Aquilo que antes era descarte hoje vira dignidade”, afirma Jack, voluntário da iniciativa.

Fortalecendo a Economia das Mães Solo

O impacto do coletivo estende-se também à geração de renda com o Circuito Empreendedor de Favela, lançado em maio de 2023. O projeto transforma a rua principal do Andaraí em uma feira mensal para cerca de 25 microempreendedores locais dos ramos de gastronomia, artesanato e moda.

O foco prioritário são as mulheres e mães solo atendidas pela ONG. Em 2025, o circuito ganhou tração com capacitações focadas em gestão, precificação e organização financeira, realizadas em parceria com o Sesc Tijuca, impulsionando a autonomia financeira dessas famílias.

Desafios: A Luta Invisível por uma Sede e Patrocínio Fixo

Embora o Moral de Cria cause um impacto direto e indireto na vida de quase 400 pessoas  mobilizando até 3 mil pessoas em suas tradicionais Festas das Crianças e distribuindo centenas de brinquedos no Natal com o icônico “Papai Noel Mototaxista”, a instituição opera no limite de suas forças financeiras.

A conquista do CNPJ e a transição jurídica de coletivo informal para ONG trouxeram maturidade técnica e administrativa, mas a realidade financeira ainda é dura. O projeto não possui patrocinadores, investidores ou padrinhos financeiros fixos. Insumos como uniformes, manutenção de instrumentos e lanches diários saem inteiramente do bolso dos próprios coordenadores e voluntários.

O grande sonho do grupo é a conquista de uma sede física própria para centralizar as oficinas e expandir o atendimento para comunidades vizinhas que frequentemente solicitam apoio, como o Turano e o Complexo do Lins.

O Moral de Cria prova diariamente que a favela não é um lugar de carência, mas sim um polo de potência, inovação social e liderança. No entanto, para que esse legado continue transformando vidas e gerando autonomia, é preciso que a sociedade e o setor privado também cheguem junto para somar.

Como bem resume Jack Favela, o projeto sobrevive da verdade e da coletividade: “O Moral de Cria não é feito apenas por mim. Ele é feito por Rayane, Renan, Gabriel, David, Jéssica, Daysa, Fabiana, Carol e tantas outras pessoas que acreditam diariamente que a favela merece oportunidades, cultura, cuidado e futuro.”

Como Ajudar:

Para conhecer mais sobre o trabalho, agendar visitas ou apoiar financeiramente a instituição: