Em 2022, o Voz das Comunidades publicou a reportagem “Entre o Lápis e o Fuzil”, mostrando como a segurança pública afeta o ensino no Complexo do Alemão. Três anos depois, pouca coisa mudou. Aprender a ler e escrever continua distante de um processo simples. Para muitas crianças, a alfabetização não esbarra apenas em questões pedagógicas, mas na violação constante dos direitos básicos que deveriam garantir segurança, permanência escolar e dignidade. Educadores do território afirmam que a crise não nasce da falta de capacidade dos alunos, mas do abandono histórico das favelas e da presença violenta do Estado, que interrompe, adoece e fragiliza o ambiente escolar.
A ativista e educadora do Educap, Lúcia Cabral, explica que o principal obstáculo à alfabetização é a ausência de condições mínimas para que uma criança consiga aprender. Segurança, frequência escolar contínua, acesso à cultura, alimentação adequada e estabilidade familiar deveriam ser garantidos pelo poder público. “A alfabetização nas favelas não é um problema de capacidade, é um problema de oportunidade e de direitos”, afirma.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Para Lúcia, o fator mais impactante é a violência armada. As operações policiais constantes interrompem a rotina escolar, criam medo, afastam alunos e abalam a relação com professores. Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação, só na região do Alemão, 2.025 estudantes de 16 escolas são diretamente afetados por fechamentos e suspensões de atividades.
A educadora Tia Bete, fundadora do Oca dos Curumins, organização de alfabetização do próprio território, reforça que a presença do Estado chega de forma hostil às crianças da favela. “A presença do Estado na educação é desastrosa quando vem através da violência. Fecha escola, rompe rotina, destrói autoestima”, lamenta. Ela afirma que esse impacto emocional e social contribui diretamente para o aumento da evasão escolar.

Rosangela Marinho, que alfabetiza no Complexo do Alemão há 35 anos, também aponta que a segurança pública é um fator impactante. “Atualmente, o que me preocupa é questão da segurança pública que afeta diretamente a rotina escolar e emocional das crianças. Ninguém consegue aprender num ambiente de tensão. Ter infância é ser livre, um direito que é privado das crianças de favela.”

Sem o apoio institucional, são os moradores que constroem soluções para manter o aprendizado vivo. Educadores, mães, pais e projetos sociais organizam reforço escolar comunitário, criam bibliotecas populares e promovem rodas de leitura nos becos e vielas. Lúcia chama essa articulação de “inteligência coletiva do território”, uma forma de preencher as lacunas deixadas pelo Estado. “Em vez de esperar que venham nos dizer quem somos, a gente mesmo constrói nossas soluções”, diz.
Mesmo quando as escolas conseguem abrir, o ambiente interno muitas vezes não acolhe as crianças. Tia Bete aponta que faltam espaços inspiradores, com projetos que despertem interesse e pertença. “Os alunos estão alienados, perdidos. Sem acolhimento, eles não permanecem”, afirma. Ela relata que a situação piorou após a pandemia, com muitas crianças apresentando problemas de saúde mental, perda de vínculos e sensação de desconexão com a escola. Esse ponto também é observado por Rosangela. “A pandemia foi um dos maiores desafios da minha vida. Alfabetizar neste contexto em que as crianças não tinham condições de ter acesso à tecnologia para acompanhar um ensino à distância. Agravado ao problema da segurança alimentar, as crianças não tinham o básico (comida). Como conseguir alfabetizar assim?”
O problema se agrava quando políticas educacionais são pensadas sem considerar a realidade das favelas. Educadores criticam métodos padronizados e programas nacionais de alfabetização que desconsideram o trauma, a violência e a falta de infraestrutura básica. Segundo Lúcia Cabral, políticas de cima para baixo ampliam o abismo entre governo e comunidade. “A alfabetização na favela requer mais do que método. Requer vida, permanência e dignidade”, alerta.
