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‘Meu filho não fez nada e a gente vai botar a cara’, diz mãe de mototaxista apontado por emissora de TV

Matheus de Souza, mototaxista de 23 anos, foi apontado como suspeito de assalto na Linha Amarela por emissora
Foto: Uendell VInicius / Voz das Comunidades

“Trocaram o T pelo D”. Bastou essa confusão em uma transmissão de uma emissora de TV para transformar a vida de Matheus de Souza de 23 anos em uma grande preocupação. O jovem, que mora no Complexo do Alemão, trabalha de mototaxi durante o dia e à noite, faz entregas de bebidas por aplicativo. Na quarta-feira (19), Matheus acordou com um grande susto quando viu seu rosto em uma transmissão de uma emissora de TV, que o apontavam como suspeito de ter participado de um assalto na Linha Amarela que aconteceu no dia 18, que acabou vitimando duas pessoas.

Entrevista exclusiva ao Voz das Comunidades

A equipe do Voz das Comunidades foi recebida por Matheus e sua mãe, Daniele de Souza na última sexta-feira (21) no Complexo do Alemão e contaram como foi o susto. “O apelido do Matheus é ‘MT DO CPX’. Ele e os mototaxistas botaram esse apelido. Aconteceu que, nesse episódio horrível, o suspeito era ‘MD’. Na hora da confusão, entenderam ‘MT’. Foram ao Instagram dele e viram fotos com a blusa ‘MT’, daí surgiu a acusação”, explicou a mãe. Na quarta-feira, Daniele, que trabalha na Barra da Tijuca, saiu do trabalho às pressas para ajudar o filho.

Esclarecimentos junto à Polícia Civil

Com o advogado, a família visitou a 44ª Delegacia de Polícia, em Inhaúma, e descobriu que o caso havia sido transferido para a Delegacia de Homicídios, na Barra. A família foi até lá para verificar se Matheus constava em algum inquérito policial no sistema da Polícia Civil. Nada foi encontrado. Naquele mesmo dia, o delegado e sua equipe não estavam. Então a família foi instruída a volta no dia seguinte. E foi o que fizeram.

Na quinta-feira (20), retornaram à Delegacia de Homicídios e receberam a confirmação de que nem o nome nem as fotos de Matheus constavam nos autos do inquérito. O mototaxista prestou depoimento de forma voluntária, informando que não tem nenhuma relação com o ocorrido na Linha Amarela, nem com outros crimes. “Ratificamos que a matéria jornalística veiculada pela emissora não é verdadeira”, afirmou o advogado de Matheus, Pedro Barros.

Rosto de jovem foi veiculado pela emissora, apontando como suspeito
Imagem: Reprodução

Impacto na Família: ‘Você sofrer por uma coisa que você não cometeu? Aí fica difícil’

A família ficou muito abalada com a situação, principalmente a mãe do mototaxista. Moradora do Complexo do Alemão há 45 anos e mãe de 3 filhos, Daniele se frustrou muito com o julgamento de olhares dos outros, mas permaneceu firme. “Somos todos trabalhadores. Mostraram o rosto do meu filho na TV e corremos atrás pra resolver. Não consta nada. Não tem nada. Hoje (sexta-feira) foi o primeiro dia que ele (Matheus) saiu pra trabalhar. Mostrou que estava no ponto trabalhando, levando passageiros. É isso. É o trabalho dele, assim como cada um tem o seu”. A família é conhecida na vizinhança e todo mundo segue sua rotina de trabalho. Além do valor pela ocupação, Daniele mostra que a criação dos filhos foi com muito propósito e objetivos de vida. “Nos ajudamos muito. São muitas as situações que atravessamos. Às vezes é um ‘ó, meu gás acabou, e dá pra emprestar?’ É emprestado. Somos unidos.”

Quando foi trabalhar na sexta-feira, Matheus voltou mais cedo para casa, pois notou que as pessoas apontaram pra ele, devido a veiculação da reportagem pela emissora. “Fui trabalhar normal. Acordei, saí pra trabalhar. Rapaziada que me conhece, falou muito comigo. Até brincaram comigo, me zoaram, quem me conhece sabe. Mas teve algumas pessoas de fora que ficaram comentando, apontaram. Só isso mesmo”, comentou o mototaxista. A mãe complementou. “Meu filho não deve passar por isso. Acho que a comunidade deve saber disso, porque eu sei que o que todo mundo viu, eu também vi, mas é uma mentira que foi, já como se diz, resolvida”, finalizou.

Segundo Pedro Barros, advogado da família, os próximos passos serão de auxílio. “Nossos próximos passos são auxiliar o Matheus e sua família nas medidas cabíveis contra a emissora e ajudá-los com outras necessidades que surgirem como acompanhamento psicológico e social.”

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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